25 de Abril outra vez!

Publicado Abril 26, 2016 por alfredofontinha
Categorias: Política

“Sem ter alguma vez imaginado dedicar-me à política e reconhecendo nela a exuberância dos pecados mais sórdidos que existem na humanidade (como a recente votação do impeachment de Dilma Rousseff no Parlamento brasileiromostrou a cores e em directo), não percebo como se pode estar tão distante dela e tão indiferente perante ela como está a maioria da população portuguesa.

Posso desfiar uma lista de razões possíveis para essa desvinculação (o descrédito dos políticos, o caciquismo dos partidos, o funcionamento opaco das instituições, as promessas traídas, a corrupção, a propaganda do “não há alternativa”, etc.), mas é só uma lista. Do outro lado, também há uma lista de tarefas exaltantes que estão ali, à nossa espera, à espera da nossa participação, da nossa palavra, da nossa acção, e para as quais a política parece ser, se não a única, pelo menos uma das soluções possíveis e uma das acções necessárias.

Vem isto a propósito do 42.º aniversário do 25 de Abril que celebrámos ontem e que, para muitos milhares de portugueses, talvez milhões, ainda está longe de ser apenas uma data histórica e ainda rima com esperança, com liberdade, com justiça e com o sonho de um mundo melhor. É isso que vemos nos olhos brilhantes uns dos outros quando cantamos a Grândola.

George Steiner, citando o mesmo discurso de Saint-Just onde este diz que “a felicidade é uma ideia nova na Europa”, dizia que, durante a Revolução Francesa, os cidadãos sentiam não só que o futuro lhes pertencia, mas que o reino da justiça estava ali, à sua frente. Não era algo longínquo e inatingível, mas uma coisa que ia acontecer já, ao virar da esquina, “segunda-feira de manhã”. Todos os grandes momentos da história da humanidade são assim, momentos de possibilidade, de esperança, onde a justiça e a felicidade podem acontecer, não apenas para os nossos filhos, para quem sempre os sonhámos, mas até para nós, segunda-feira de manhã.

Durante os últimos anos, anos de chumbo, anos de “there is no alternative“, onde nos venderam como objectivo nacional o empobrecimento material e como virtude o empobrecimento moral da subserviência, houve alturas em que a política pareceu, mais do que um beco sem saída, um sítio mal frequentado por excelência e a governação uma mera capa de escroques e bajuladores, sedentos de gorjetas e prebendas.

Felizmente, o ar clareou e hoje podemos festejar um regresso à política. Não a política do servilismo, que consiste em obedecer, dobrar a espinha aos mais fortes e recolher as migalhas que caem da mesa, mas a política dos cidadãos, que consiste em tentar construir um futuro melhor.

Não penso de todo que o afastamento da política por parte dos cidadãos venha da dificuldade do empreendimento. Pelo contrário. O afastamento vem do sentimento de que o jogo está viciado e que a batota se instalou, não dos obstáculos que nos surgem à frente. Afastados os batoteiros e limpa a mesa, os obstáculos são bem-vindos. E há muitas conquistas que merecem o nosso esforço. Aqueles mesmos objectivos que os de antes nos diziam que eram impossíveis ou mesmo perniciosos: pleno emprego, fim da pobreza, combate às desigualdades, bem-estar para todos, combate à corrupção, protecção do ambiente, empresas sustentáveis, dignidade no trabalho, acesso universal à educação e à cultura, permitir que qualquer criança seja tudo o que pode ser independentemente da família e do bairro onde nasceu, tornar a administração mais eficiente, promover os direitos humanos e a paz. A lista é infindável, até porque não se esgota nas nossas fronteiras, e é a melhor lista de tarefas que existe no mundo.

A seguir ao 25 de Abril a felicidade era uma ideia nova em Portugal. E, por essa razão, porque sabíamos o que queríamos e o que era possível, porque tínhamos vislumbrado a felicidade e a justiça, conseguimos imensas vitórias, pelas quais devemos congratular-nos e agradecer aos muitos cidadãos e aos muitos políticos que lutaram por elas. Mas houve um momento onde nos esquecemos dessa política nobre, e deixámo-nos deslizar para uma política que foi apenas negócio e burocracia, desencanto e desistência.

Neste aniversário do 25 de Abril, pela primeira vez em muitos aniversários, sentimos que podemos fazer mais, que a política tem muitos desafios difíceis para nos colocar. E não há nada mais mobilizador do que um desafio.

Hoje vemos na Europa milhares de jovens que aderem a movimentos terroristas milenaristas, que oferecem sofrimento e morte sem fim. Fazem-no porque aí encontram uma identidade, a pertença a um grupo, uma fé, um projecto que os transcende e ao qual podem sacrificar a vida. Estes jovens não encontram nas suas vidas e nos seus bairros nada de mais exaltante que os motive. Mas existem mil desafios à nossa frente para os quais a política tem de conseguir mobilizar os cidadãos em geral e os jovens em particular. Hoje, podemos pensar que esse sonho está outra vez ao nosso alcance. Não o desperdicemos.”

José Vítor Malheiros

25 de Abril

Publicado Abril 25, 2016 por alfredofontinha
Categorias: Sociedade

“O Piolho”

Publicado Abril 24, 2016 por alfredofontinha
Categorias: Cultura e Lazer

Café Ancora d’Ouro, vulgo “O Piolho”, onde desde 1889 se encontram muitos professores e alunos da Universidade do Porto.

“ O Café Âncora d’Ouro, também já existia nos fins do sé. XIX. No ano de 1909 foi trespassado a Francisco José de Lima. Hoje (1964) na posse de um seu filho, desfruta de grande prestígio, por ali se reunir a classe médica e a irrequieta estudantina universitária. 

Por essa razão, é que as suas paredes se vêem ornamentadas com inúmeras placas de mármore ali mandadas colocar, de 1947 para cá, pelos cursos médicos, na altura da movimentada e festiva Queima das Fitas. 

Para amostra e como lembrança, aqui deixamos o texto integral de duas dessas lápides:

“Vós que ora entrais, sabei que outros maiores,

Que os mestres nunca olharam bem de frente, 

Um dia conquistaram sem favores,

O grau que ambicionais, ó fraca gente!

Deste café saíram tais doutores 

Sem nunca terem visto a cara ao lente…

(do curso 1951/52)

“Ouve oh caloiro ingénuo e criançola

(que nisto de Galeno estás bem cru):

Entrega ao mestre a sua velha escola

E manda o que aprendeste a belzebu…

Has-de gritar, um dia, dando à sola:

Ancora d’Ouro, a faculdade és tu…”

(do curso 1952/53)

Fonte: Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

A direita patriota contra os portugueses

Publicado Abril 23, 2016 por alfredofontinha
Categorias: Política

“Temos um Governo que se atreve – imagine-se – a ter um programa sufragado democraticamente que traça uma política que rompe com a austeridade expansiva do empobrecimento.

Temos um Governo do Estado soberano português que se atreve – imagine-se – a criticar Bruxelas, a defender Portugal.

Temos um Governo que se atreve- imagine-se- a apresentar um verdadeiro plano nacional de reformas em matéria de intervenção, de produtividade e competitividade, de endividamento da economia e reforço da coesão e igualdade social, esta última destruída nos últimos quatro anos.

Temos um Governo que se atreve – imagine-se – a traçar um outro caminho no que toca à educação, à saúde ou à segurança social.

Temos um Governo que se atreve – imagine-se – a investir na qualificação dos portugueses como consta do plano nacional de reformas, em cerca de seis mil milhões de euros. Um Governo que sabe que o país não aguenta mais o desprezo pela promoção do ensino secundário enquanto patamar mínimo de qualificações.

Temos um Governo que se atreve – imagine-se- a defender que é imperioso combater o insucesso e abandono escolar e a qualificação de adultos, com medidas como a atribuição de 70 mil bolsas no ensino superior, o reforço do ensino secundário profissional e a atribuição progressiva de manuais escolares gratuitos no ensino básico e secundário. Um Governo que inverte democraticamente o ataque à segurança social, à facilitação dos falsos recibos verdes, que põe fim à inércia perante os desencorajados.

Perante as críticas da comissão europeia – nomeadamente quanto ao aumento do salário mínimo – temos finalmente um primeiro-ministro que levanta a voz e que não faz de criado, afirmando claramente que recusa um modelo de país baseado em baixos salários e que a batalha pela igualdade continua.

Temos finalmente um primeiro-ministro que diz isto: “a batalha pela igualdade é permanente, já a travámos antes do 25 de Abril de 1974 e temos de continuar a travá-la. Quando vemos alguns cá dentro ou na Europa a dizerem que em Portugal nós não nos desenvolveremos aumentando o salário mínimo nacional, porque estamos condenados a viver num país de baixos salários e de pobreza, temos de dizer que não aceitamos”.

Perante este Portugal defendido, temos uma direita comunitária no sentido hipócrita da palavra: uma direita que se desdobra em alta voz a exigir um “plano B”, cheia de esperança que ele exista, a roer as unhas para que a execução de um OE que devolve dignidade às pessoas seja substituída pela exigência de austeridade.

Perante este Portugal finalmente defendido sem meias palavras, a direita ao fazer tudo para que a defesa do Estado social nas suas várias vertentes caia em nome do tal “Plano B”, mais uma vez denuncia a sua servidão a Bruxelas, num “internacionalismo europeu” mesquinho, indiferente à consequência de isso mesmo ser uma adesão ao ataque à recuperação da dignidade de quem trabalha continuando pobre.

Patriota, diz de si a direita.”

Isabel Moreira

A interessante apatia face aos offshores

Publicado Abril 22, 2016 por alfredofontinha
Categorias: Sociedade

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“Não me espanta ver que, com o tempo, e à medida que os próprios mecanismos do jornalismo – que vive da novidade e que esgota ele próprio rapidamente a novidade, e que não consegue, nem quer, manter o critério da relevância – vão esmorecendo, o “interesse” pelas revelações dos Panama Papers desaparece e vai ficando tudo na mesma. Nas duas últimas semanas vários distintos advogados foram a todos os canais, RTP, SIC, TVI, explicar que os offshores, não sendo uma coisa excelente (esta argumentação ad terrorem fica para os autores de blogues “liberais”), são de uma pura legalidade.

Já comparei este tipo de argumento com o dos defensores das armas nos EUA: “Não são as armas que matam as pessoas, são as pessoas que matam as pessoas.” Aqui é “não são os offshores que levam à fraude fiscal, à evasão fiscal, à lavagem de dinheiro criminoso, da droga, dos subornos, etc., são as pessoas que fazem tudo isso.” O instrumento é impoluto, é “legal”.

Claro que há uma pergunta que tem ainda mais sentido com os offshores do que com as armas: qual é a utilidade económica dos offshores? E depois outra pergunta: por que razão, havendo tantos meios “legais” de ter guardado o seu dinheiro, sólidos bancos, colchões, cofres na parede, os muito, muito ricos, têm uma espécie de predilecção intensa por esta forma de “legalidade” que são os offshores?

É que o mundo dos “mercados” e de muita política capturada por eles, não mobiliza milhares, nem milhões, mobiliza biliões e triliões. Isto é que é amor pela “legalidade”!”

José Pacheco Pereira

ISD (Incoerência Social Democrata)

Publicado Abril 22, 2016 por alfredofontinha
Categorias: Política

“Se por cada vez que um responsável político falta à verdade – quem é imaculado e tem o cadastro limpo que atire a primeira pedra – a justiça fosse chamada a intervir, os tribunais estavam ainda mais entupidos e as suspeitas que aguardam acusação ou condenação durante anos infindos acabariam por prescrever.

Vem isto a propósito de o PSD ter instado o Ministério Público a investigar se o ministro das Finanças, Mário Centeno, prestou falsas declarações na comissão de inquérito ao Banif. Não faço ideia se o governante ou outro qualquer depoente cometeram perjúrio. Isso é o que se espera, entre outras responsabilidades, que seja apurado pelos deputados inquisidores. O que ultrapassa os limites do razoável e roça as raias do ridículo é que um partido, seja qual for, por má consciência e para iludir as suas culpas neste cartório – não nos esqueçamos de que PSD e CDS estiveram quatro anos e meio para resolver o dossiê Banif e não o fizeram por razões de natureza puramente eleitoral – recorram ao expediente da judicialização do debate político para, qual biombo, esconderem os seus pecados.

As comissões parlamentares de inquérito estão investidas de poderes judiciais mas o que se julga num Parlamento democrático são responsabilidades políticas. Era bom que os responsáveis partidários, neste caso à direita, atentassem na voz rara da sensatez que Pedro Passos Coelho revelou, por más razões e pior exemplo, é certo, porque estava em causa o cumprimento da Constituição, em fevereiro de 2013. O ex-primeiro-ministro queixava-se do recurso sucessivo aos tribunais – então o Constitucional – pelos partidos da oposição, argumentando que pôr a justiça a decidir sobre derrotas no debate político é uma atitude que “promete conflitualidade e judicialização da política”.

Os mesmos que agora correm para debaixo das saias do Ministério Público são os que no passado recente criticavam, e bem, sindicatos e ordens profissionais por impugnarem nos tribunais decisões políticas cujo julgamento devia ser feito nas urnas, como é próprio das democracias.

Mas, como diz o povo, olha para o que eu digo e não para o que eu faço. Em material de coerência, com o PSD, estamos pois conversados.”

Editorial DN

Difamar a democracia

Publicado Abril 21, 2016 por alfredofontinha
Categorias: Política

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“Todos os dias recebo emails difamando a classe politica, supostas denúncias de enriquecimento ilícito, comparação com o exemplo vindo de fora, propostas de redução do número de deputados. A mensagem é sempre a mesma, os deputados são inúteis, os políticos são incompetentes, desonestos e corruptos.

Todos os dias ouço palavras em programas de televisão onde os nossos políticos são achincalhados, tratados por inúteis e incompetentes, a democracia é tratada como um regime que conduz a más soluções. Ouça, por exemplo, o discurso de Medina Carreira, a forma como rebaixa a maioria dos políticos, como eleva a modelos aqueles com que concorda e reduz a caca aqueles de que discorda e desconsidera. E quem é esse Medina Carreira, alguém que aprendeu os valores da democracia no berço familiar, alguém que marcou o país pela sua competência, alguém habilitado para falar dos temas que comenta?

Todos os dias, umas vezes de forma mais subliminar do que outras, a classe política é achincalhada e a democracia é apontada como um regime gerido por bandidos, incompetentes e corruptos. 

Quantos políticos temos em Portugal? Alguns milhares. Governantes, autarcas, deputados e muitos milhares de militantes anónimos que ajudam a manter os partidos na base dos quais funciona a democracia. Quantos destes políticos nada ganham, quantos deles dão horas e horas da sua vida privada à democracia sem pedir nada em troca.  Será justa a forma como os emails e os Medinas os tratam? Será justo que os que não dão um minuto ao país se entretenham a difamá-los de forma sistemática?

Há corruptos em Portugal? Há sim senhor, há na classe política, mas também em todas as profissões. Há banqueiros, gestores, vendedores e muitos outros profissionais que conseguem ganhos de forma ilegítima roubando o Estado, o patrão ou os seus parceiros. Há muito que Portugal tem um problema entranhado chamado corrupção.

Foi à custa da corrupção que os grupos financeiros do anterior regime se formaram, ou não era corrupção chamar a PIDE para calar reivindicações laborais? Não era corrupção entregar a um almirante do regime o exclusivo da pesca de arrasto em toda a costa portuguesa? Não era corrupção a entrega de sectores a empresas de gente ligada ao regime?

Salazar poderá ter feito votos de pobreza construindo a imagem de um político incorruptível, mas a verdade é que o seu regime político era profundamente corrupto e desde o modesto funcionário do fisco ao maior empresário geriam os seus esquemas de corrupção consentida pelo regime. E também tinha a sua classe política, incluindo deputados, escolhidos segundo critérios corruptos.

Estou farto de ver difamarem a democracia atribuindo-lhes todos os males do país e elogiando de forma subliminar uma ditadura que alimentou e se alimentou de corrupção.”

O Jumento