Archive for the ‘Saúde e Social’ category

A “ordenha”

Abril 23, 2015

“Em dois hospitais do norte do país, dirigentes (ou administradores) prepotentes congeminaram um método “expedito” de detetar eventuais abusos de enfermeiras no gozo dos períodos de dispensa do trabalho diário para amamentar os seus filhos.

Estas mães foram obrigadas a espremer os seios à frente dos médicos de saúde ocupacional. Custa a compreender a atitude dos próprios médicos destacados para o efeito, visto que estão obrigados pelo juramento de Hipócrates a praticar a sua arte em benefício dos doentes e nunca para seu prejuízo ou com propósitos malévolos. Perderam uma excelente oportunidade de desobedecer a uma ordem ilegal, exercendo o direito de resistência consagrado no artigo 21º da Constituição.

Mas também não é fácil compreender a posição do Ministro da Saúde. Disse que não ordenou o procedimento e que ignora a “metodologia”. Faltou-lhe dizer o essencial: que a “ordenha” das enfermeiras viola o primeiro princípio da Constituição – a essencial dignidade da pessoa humana – e não pode ser tolerada em nenhuma circunstância.”

Rui Pereira

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O mal e a caramunha

Fevereiro 6, 2015

“Não podia concordar mais com o primeiro-ministro quando anteontem disse, sobre a morte de uma doente com hepatite C, que ninguém deve “aproveitar o que é trágico” e “alimentar-se da desgraça”. Pena ter-lhe tão tarde chegado a iluminação. Em agosto de 2010, no primeiro Pontal à frente do PSD, não teve pejo em aludir à cegueira de que foram vítimas pacientes de uma clínica privada algarvia, acusando as “autoridades públicas” de “incúria” por “se demitirem da sua função de fiscalização”, e acrescentando: “É isto culpa do PSD? É este o Estado social que o PS quer oferecer a Portugal?”

Que repulsa deve sentir Passos PM desse outro que, na oposição, aproveitava mortes e cegueiras para combater o governo. Como a que surge ante quem recusa renegociações, perdões e reestruturações da dívida, que ataca os gregos por quererem pagar menos ou mais devagar, que clama “pagaremos custe o que custar” mas se rebela contra a farmacêutica que criou um medicamento com taxa de cura de 90%: “O preço que solicitado não é adequado sob nenhum ponto de vista. Os estados devem fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar vidas humanas e assegurar os melhores cuidados de saúde. Mas é mentira que custe o que custar no sentido em que tenhamos recursos ilimitados para suportar qualquer preço de mercado”.

Evidente: o Estado não tem recursos ilimitados. E, sem dúvida, o preço que a farmacêutica pede é muito elevado. Mas será mesmo “injustificado”? Não há informação oficial sobre qual o valor na mesa ao fim de um ano de negociações, mas o DN noticiou ontem que um ciclo de tratamento – três meses – desceu para 24 mil euros, metade dos 48 mil iniciais. Muitos doentes precisam de seis meses e podem ser necessários outros fármacos; difícil fazer contas. Tendo só 30% dos 13 mil doentes identificados indicação, segundo os especialistas, para tratamento imediato, este, a um preço médio de 30 mil euros, orçaria 117 milhões. Imenso. Porém – por exemplo – em 2013 o SNS gastou 220 milhões com antirretrovirais para 28 mil pessoas com HIV-sida; 7857 euros por paciente. É muito ou razoável? Se não combatido, o HIV causa a morte. Tal como o HVC (vírus da hepatite C). A medicação para o HIV é necessária toda a vida, o que implica multiplicar o valor por todos os anos de toma; o fármaco inovador contra o HVC exige um ciclo ou dois de tratamento e pronto – estamos a falar de cura. Não é difícil concluir qual sai mais caro. Mas, claro, dizer algo deste género é, como ontem gritava a maioria no parlamento, “ficar do lado das farmacêuticas.” Porque os mercados só têm razão quando emprestam dinheiro a juros usurários, e Passos e quem o apoia têm horror à demagogia. Ou não fosse ele quem, em abril de 2011, em “mensagem de Páscoa”, asseverava: “Nestes momentos conturbados, podemos abdicar de muitas coisas. Mas a garantia sobre os cuidados de saúde é uma segurança que tem de ser dada a todas as pessoas.”

Fernanda Câncio

Pela nossa saúde

Fevereiro 5, 2015

paulomacedo

“(…) O que Paulo Macedo tem tido dificuldade em perceber é que a saúde é muito mais do que os números encaixados numa folha de Excel, é mais do que um acerto de contas entre o deve e o haver. Um ministro da Saúde não gere apenas contabilidades, gere também as sensibilidades de quem sabe que a qualidade das suas vidas depende (e muito) das decisões que toma.

Paulo Macedo tem mostrado competência na primeira tarefa, mas na outra, que é talvez a mais preciosa, tem sido inábil e até desastroso na forma como gere a percepção pública, como evita os casos críticos e como, verdadeiramente, pensa resolver os efeitos mais nefastos da sua própria terapia no sector. Essa sim, é a maior urgência a socorrer. Pela nossa saúde.”

Helena Cristina Coelho

As 10 razões da congestão das urgências

Janeiro 12, 2015

“De Norte a Sul do país, mesmo antes da epidemia de gripe, as urgências estão em ruptura, algumas em caos. Já ocorreram várias mortes desnecessárias, que ficarão indeléveis no curriculum dos efeitos colaterais das medidas tomadas pelo Ministério da Saúde. Gerir a Saúde não é o mesmo que gerir uma repartição de Finanças.

Mas porquê a congestão? É a consequência dos cortes excessivos na Saúde

1. Por razões economicistas, o Ministério reduziu o tempo de abertura dos centros de saúde e USF, não contrata os médicos de família reformados de que necessita (reformaram-se 1400 nos últimos cinco anos), fechou múltiplos SAP (em Dezembro de 2013 ainda foram feitos dois milhões de atendimentos em SAP, que desapareceram na monitorização mensal da ACSS de 2014), e atrasou a reforma dos cuidados de saúde primários. Os doentes com doença aguda não urgente ficaram sem alternativa às urgências hospitalares.

2. Fecharam ou encerraram as camas de agudos dos hospitais concelhios e as respectivas urgências, concentrando os doentes num menor número de urgências hospitalares.

3. Encerraram milhares de camas hospitalares de internamento de agudos, quando Portugal já tinha um número insuficiente de camas. Segundo os mais recentes dados da OCDE, Portugal tem 3,4 camas por cada mil habitantes, enquanto, por exemplo, a Alemanha tem 8,3, a Bélgica tem 6,3, o Luxemburgo tem 5,2 e a Holanda tem 4,7.

4. Conforme o próprio relatório da Gulbenkian referiu, Portugal tem uma população idosa particularmente doente, frágil e só, sem apoios sociais suficientes, obrigando-a a recorrer frequentemente às urgências e internamento hospitalar.

5. Em muitos hospitais as equipas das urgências foram reduzidas abaixo dos limites mínimos de segurança, até para a procura de rotina, e o espaço físico é insuficiente para o afluxo de doentes.

6. Os hospitais foram proibidos de contratar médicos directamente em prestação de serviço para as urgências, mesmo dentro dos limites legais de remuneração, impedindo o hospital de os escolher pela qualidade e de os integrar nas equipas de trabalho.

7. Foi imposta a contratação através de empresas de mão-de-obra temporária, que muitas vezes não têm médicos para os turnos a que concorrem, desorganizando completamente as urgências e, pela permanente rotação de médicos desconhecidos, impedindo a formação de equipas de trabalho.

8. Os hospitais não têm autonomia, foram asfixiados financeiramente, com cortes acima das imposições da troika, e levados à falência técnica pelo Ministério da Saúde.

9. Não foi feito o planeamento e preparação atempada para o Inverno.

10. Os cuidados continuados não têm capacidade de resposta às necessidades e não têm meios para tratar as intercorrências clínicas dos doentes institucionalizados, obrigando ao recurso às urgências hospitalares.”

José Manuel Silva (bastonário da Ordem dos Médicos)

As moscas

Dezembro 10, 2014

“Creio que a televisão era a SIC, sempre pressurosa e solícita em noticiar episódios que tenham como protagonistas ministros, empresários e afins. O sr. Manuel Agonia, pelo que vi, é um senhor considerável, robusto e, até, um pouco bojudo, que me fez lembrar os desenhos de George Grosz. Faltava-lhe o charuto, no que lhe sobrava de sobranceria. Em posição subalterna, porém muito satisfeito e feliz, caminhavam Pedro Passos Coelho e uma comitiva sorridente. O sr. Agonia, pelo que soube a seguir, é o presidente do conselho de administração do Hospital Senhor do Bonfim, em Vila do Conde, recém-inaugurado. Tudo isto decorre numa nítida perfeição, inclusive os sorrisos, as palmas e os discursos de circunstância. Foi quando a festa se toldou, pois o sr. Agonia, presidente, disse: “É preciso não esquecer que a saúde é um negócio.”

Caímos na realidade, porque a frase, só na aparência inócua, comporta, no seu bojo, uma doutrina, um projecto e uma alteração social que não devem ser negligenciados. Se queres ter saúde, paga-a. Se não tiveres dinheiro, morre para aí, despejado pela miséria.

Como as ideias de um homem não lhe pertencem, em exclusividade, e fazem sempre parte de um grupo e de um sistema de valores, a declaração do sr. Agonia não é despicienda. Insere-se numa estrutura de pensamento que cavalga na Europa, muitas vezes com a cumplicidade ou a complacência daqueles que a deviam combater. “Cada vez somos menos”, dizia-me, há tempos, o meu amigo Manuel Alegre, perante a avalanche de cobardias que por aí se precipita. A Esquerda, aparentemente sem resposta, parece entender esta torrente ideológica como um transtorno momentâneo. Mas o movimento de alteração da ordem social nascida no fim da guerra não é superficial: incorpora-se nas novas projecções do capitalismo, que pretende abalar os padrões de solidariedade e as relações humanas, constitutivos de uma Europa em desaparecimento acelerado. “A saúde é um negócio”, arrepia ouvir.

Há uns dias, Passos Coelho afirmou, a uma plateia de jovens correligionários, que “os donos do País estão a desaparecer”. O homem cada vez sabe menos do que diz. As moscas são as mesmas, porém disfarçadas de borboletas.”

Baptista Bastos

Mas que vergonha…

Maio 7, 2014

A saúde dos portugueses

Janeiro 14, 2014

“(…) O brutal aumento dos prestadores privados, por mera coincidência em muitas das áreas onde se procedeu ao fecho de serviços públicos, e a expansão financeira quase inexplicável de alguns permite concluir que os dinheiros públicos são escassos para o SNS, mas suficientes para uma substituição silenciosa e progressiva.

Durante décadas, os prestadores dos sectores privado e social foram encarados como complementares ao SNS.

O actual governo apenas garante que devem ser salvaguardados os cuidados aos mais carenciados, muitos dos quais também não recorrem aos serviços públicos por não disporem de dinheiro para transportes e medicamentos.

Tudo isto era previsível. Mas tem existido um manto de silêncio. Onde estão as vozes dos partidos da oposição? Onde estão as vozes mais respeitadas dos especialistas em saúde?”

Manuela Arcanjo