Archive for the ‘Saúde e Social’ category

Eutanásia

Março 11, 2016

“A maioria das pessoas toma decisões com base na ideologia, na religião ou nos media. Seria certamente melhor se cada um usasse a própria cabeça com racionalidade. Mas isso é raro. Muito raro.

Neste contexto, o debate público sobre qualquer matéria torna-se extremamente penoso. Não se consegue abordar o essencial e perde-se muito tempo com as mais diversas questões laterais ou irrelevantes. A discussão sobre a eutanásia aí está para o demonstrar. Até ao momento temos algumas declarações “polémicas” de enfermeiros e médicos; seguidas da reação estapafúrdia da Ordem dos Médicos que ameaça processar toda a gente; temos a recorrente defesa da vida divinizada pelos militantes católicos; e o alinhamento ideológico de uns e outros, direita contra, esquerda a favor. Pelo meio fica a barafunda habitual provocada pelas televisões.

Eutanásia, que vem do grego, significa boa morte. Tem origem nesse desejo comum e humano de, uma vez chegada a hora, se ter uma morte em paz e sobretudo sem sofrimento. Quando ela não acontece pela via natural e a doença se torna irreversível, insuportável e incapacitante, apela-se então à eutanásia, ou seja, à provocação antecipada da morte administrada por um terceiro, de preferência por um médico.

Porque se fala então tanto de eutanásia hoje? Por uma razão simples. A extraordinária evolução da medicina nas últimas décadas permite agora combater a maioria das doenças e prolongar a vida até aos 80, 90 e até mais de 100 anos. Não sem consequências perversas. A capacidade de prolongar a vida, por meios artificiais, gera situações incongruentes. Nem se está vivo nem morto, mas o sofrimento subsiste. Chama-se distanásia.

Considero a distanásia um problema muito maior do que a eutanásia.  Com a evolução da medicina e das tecnologias da saúde vai sendo cada vez mais frequente prolongar a vida em estados comatosos ou vegetativos. Tal com a distopia está para a utopia, a distanásia está para a eutanásia. É o seu lado negro.

De qualquer modo, a questão de fundo sobre o atual debate não está no desejo da pessoa que sofre e suas famílias, nem no comportamento dos profissionais de saúde. Trata-se de saber qual o papel do Estado. Será que o Estado tem o direito de impedir uma pessoa de morrer quando quer? Será que o direito à morte não equivale ao direito à vida? Não se trata de um direito individual, absoluto, exclusivo, que não admite a interferência do Estado?

Mas por outro lado, será que o Estado tem o direito de antecipar a morte de alguém, porque considera que já não tem recuperação e está a consumir meios que deviam servir para outros que ainda podem recuperar? Será que as famílias não poderão usar a eutanásia para antecipar heranças, por exemplo?

No campo sério, são estes os principais argumentos. Defesa do direito individual à autodeterminação e, do outro lado, medo do poder discricionário do Estado. Mas, como sucede em tanta outra matéria, não devemos fugir ao princípio de que perante qualquer conflito de argumentos deve prevalecer o superior interesse do indivíduo. É nele que assenta a própria noção de direito nas nossas sociedades.

Convenhamos, a morte está no mesmo plano da vida, os direitos têm de ser similares. Bem sei que a maioria das pessoas não gosta de falar do assunto. É um dos maiores tabus das nossas sociedades. Mas na verdade a morte é mais certa do que a vida. Porque esta pode nunca acontecer, mas quando se dá, a morte é garantida.

Por isso tal como existem médicos que praticam os partos, ajudando a antecipar, facilitar, garantir que corre bem, também na morte devemos ter profissionais preparados para assistir quem deseje pôr fim aos seus quinze segundos de fama e brilho.

É para aí que vamos, por muito que isso assuste algumas pessoas. Na Europa já existem clínicas especializadas na assistência à morte. Na Holanda, Bélgica, Suíça e Luxemburgo onde a prática é legal. No futuro, elas existirão por todo o lado. Nasceremos numa clínica e iremos morrer noutra. Porque é da natureza humana querer acabar sem sofrimento nem mágoa.”

Leonel Moura

A saúde acima de tudo

Dezembro 28, 2015

“Estamos numa quadra especial. O Natal o tempo da família e do descanso. Nesta época que passamos com aquelas que são as pessoas que mais gostamos devemos estar gratos por vivermos num país, que apesar das dificuldades que em conjunto procurámos e procuramos sempre superar, se vive em paz e onde a guerra e o conflito são imagens de locais distantes.

Entre o bacalhau e a filhó muitos SMS são trocados e muitos votos desejados. Neste tempo apenas rezo e peço uma coisa, bem como apenas a desejo a quem contacto, saúde. Não há bem maior do que ter saúde. Podem todos ser muito ambiciosos.

Podemos pedir dinheiro e muito sucesso. Podemos pedir casas e carros, muita roupa e muitos brinquedos. Mas sem a saúde, perdoem-me as almas mais angustiadas com a ambição material, ninguém usufrui do que conquista. É que o corpo humano, por mais que existam diferenças sociais é igual para ricos e pobres. Não há distinção. Se vem uma maleita forte, não há casa ou dinheiro que nos salve.

Vem isto a propósito do papel do Estado. Se há valor maior e em que nunca, por nunca, deva ser reduzido o investimento é na saúde. Não há, nem pode existir um único português sem acesso a um livre e rápido Serviço Nacional de Saúde. Não acredito num Estado que fecha a porta de um hospital a quem precisa, ou a mantém aberta sem as devidas valências a funcionar.

Podemos discutir o papel do Estado, onde pode e deve intervir, onde apenas precisa de regular ou onde não é de todo necessário. Agora, no que diz respeito à saúde, não podemos negar esforços, nem andar em cortes cegos. Não digo que não tenha de haver racionalidade nos gastos, bem como ponderação dos custos. É preciso gestão e uma gestão cuidada e ponderada. Rigorosa. Todavia não se façam confusões, rigor não significa cair no economicismo, não se pode cair na escassez de sensibilidade social.

Gostei de ler há umas semanas que o novo Ministro da Saúde, Adalberto Fernandes, queria um SNS mais humano e menos quantitativo. Cada doente não é um número. É um ser humano que precisa de ser tratado, de obter tratamento para a sua doença, alívio para o seu sofrimento. Vem toda esta reflexão a propósito do caso que nos chegou do jovem que faleceu por falta de atendimento adequado no Hospital de São José. Como é possível isto acontecer em pleno século XXI? Num tempo de tecnologias e facilidade de comunicações e de transporte. Não existem neurocirurgiões vasculares no São José ao fim-de-semana? Então porque não é logo enviado para Santa Maria? A região de Lisboa não tem resposta, aos fins-de-semana, para estes casos?

E como se pode permitir que um hospital receba doentes com uma patologia para a qual não têm capacidade de resposta?

Isto é trágico e foi mais uma vida que se perdeu, de qualquer forma, aguardemos pelo necessário processo de averiguações que se impõe, provavelmente negligente. Uma família passou um funesto Natal. Não podemos deixar passar em claro, nem podemos baixar os braços. Ontem foram apenas umas pessoas que vimos na TV, amanhã não sabemos à porta de quem estas trágicas circunstâncias podem bater. Para quando haverá em Portugal uma visão preventiva e não uma postura reactiva, sempre a correr atrás do prejuízo?

Não é apenas este o caso mais grave. O abandono de idosos em hospitais é mais um flagelo que ocorre nesta época em que o importante deveria ser o apoio à família. Para não acrescentar o problema das listas de espera para operações e por aí fora.

Nesta quadra, que todos estamos mais predispostos ao sentimento, não podemos deixar de reflectir. Mais do que salvar bancos, a maior prioridade que um Estado tem de ter é salvar vidas. O papel do Estado, as gorduras e excessos, de um monstro burocrático e de negócios que cresce e pouco acrescenta tem que ser posto em causa. Mas o bem maior é, para mim, bem claro.

Haja saúde, que os bancos e as crises financeiras logo se resolvem.”

Diogo Agostinho

Até a OMS nos mete medo com a carne vermelha

Outubro 27, 2015

“Para dar uma mãozinha de coentrada aos comentadores que nos têm assustado com as comezainas infantis de Jerónimo ao pequeno-almoço, surgiu ontem um aviso da Organização Mundial da Saúde. Foi o tipo de notícia feito de propósito para nos tirar o apetite: a carne seria cancerígena. A sê-lo, a carne, afinal, é forte: mata que se farta.

A coisa é tão grave, explicam, que quanto mais se cura a carne, mais adoecemos nós. Sobretudo, nada do fumeiro nem de enchidos: nem chouriço, chouriça, chourição, presunto e morcela, nada – se isto não é uma carnificina! Dizem que a carne fumada faz tão mal como o tabaco. Eu até pensava que seria mais, porque ela não nos deixa escapatória nenhuma: pode não inalar-se o fumo dum cigarro, mas é impossível consumir uma linguiça sem engolir.

Dói conhecer a necessidade destes cortes no mastigar, sobretudo nos mais velhos. É que à mesa não se envelhece, é dos poucos vícios em que nos tornamos mais estouvados com a idade. O grande humorista brasileiro Stanislaw Ponte Preta (morreu aos 45 anos de enfarte) dizia: “Uma feijoada só é realmente com todos se tiver uma ambulância de plantão.”

Eu não digo nada, mas espero que o aviso seja só mais uma ingerência dos mercados e das instâncias internacionais para nos meter medo com aleivosias políticas. Repararam? A OMS fez questão de nos alertar contra a carne vermelha…”

Ferreira Fernandes

Que saudades do SNS!

Junho 24, 2015

“O Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), constituído por reputadíssimos técnicos do sector, veio confirmar o que já se sabia e muita gente diz, mesmo contra o papagueado pelo Governo: as políticas governamentais recentes e a presença da ‘troika’ afectaram muito os cuidados de saúde, e o próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Entre outras coisas, concluíram que o número de enfermeiros anda “claramente abaixo” da média da OCDE (países desenvolvidos), os médicos estão mal distribuídos, o valor das taxas moderadoras afasta os utentes, falta de camas, medicamentos, etc.

Já vimos que, mesmo em campanha eleitoral, este Governo limita-se a desmentir o óbvio, incluindo quando é apresentado por especialistas como estudo; portanto, se queremos mudanças, temos que provocá-las em eleições.

Nem sabia de coisas que dizem os membros do OPSS. No entanto, caíram-me mal várias atitudes deste Governo na área da Saúde, a começar pelo exagero de burocratização, fixando tempos específicos para actos médicos, que pela sua essência não podem ser medidos ao segundo ou ao minuto. Agora estou ainda mais arrepiado.”

Continuo com a ideia de que a única razão da popularidade do ministro da Saúde, na própria maioria, era achar-se que ele não concordava com Vítor Gaspar. Mas só isso devia dar popularidade a uma esmagadora maioria dos portugueses (só deviam ficar de fora Passos, Mº Luís Albuquerque e poucos mais).”

Pedro d´Anunciação

Devolver o SNS aos portugueses

Maio 27, 2015

“Nos últimos quatro anos assistimos, no sector da saúde, à aplicação mecânica de um espartilho orçamental onde os cortes foram sendo aplicados, sem critério nem racionalidade.

A política de saúde foi substituída por uma prática administrativa de mera gestão orçamental desprovida, na maior parte das vezes, de qualquer sentido de humanismo na decisão política.

Uma política de saúde instigadora do racionamento dos cuidados, inconsequente e injusta que levou a que mais de 30% dos idosos tenham deixado de utilizar os recursos de saúde por não poderem comportar os respetivos custos.

Uma política de saúde, apostada em empurrar para fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS) milhares de cidadãos, que agravou fortemente os encargos das famílias transformando Portugal num dos cinco países da União Europeia com maior peso de pagamentos diretos.

Uma política de saúde que nos deixa como resultado emblemático mais de um milhão de portugueses sem médico de família, o desinvestimento nas USF, urgências hospitalares desestruturadas e em rotura, profissionais desmotivados e uma degradação dos hospitais públicos sem precedentes.

Uma política de saúde que, apesar da violência das medidas fiscais e orçamentais, foi incapaz de cumprir o seu principal desiderato: a sustentabilidade económica e financeira do SNS.

No fundo, uma política de saúde inconsistente marcada por uma flagrante dissonância entre a “realidade oficial” e o “mundo real” dos cidadãos e dos profissionais.

O resultado desta política está hoje à vista de todos traduzindo-se num impressivo avolumar das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde com particular enfoque nos grupos mais vulneráveis da população – crianças, jovens e idosos.

É, por isso, que está na altura de devolver o SNS aos portugueses.

E para essa tarefa, de tão grande responsabilidade cívica e democrática, ninguém melhor do que o PS está em condições de produzir a mudança.

Porque o PS esteve na génese do SNS. Porque o PS esteve sempre presente nos momentos mais decisivos da sua transformação quando lançou as importantes reformas dos Cuidados de Saúde Primários e dos Cuidados Continuados Integrados. Porque o PS acredita no SNS tendo, por essa razão, o impulso e a motivação necessários para o recuperar e para o desenvolver.

Num quadro de crescente degradação do SNS, é indispensável mudar de política retomando a relação de confiança dos cidadãos simplificando o acesso e recentrando o sistema nos cuidados de proximidade.

Este será também um dos maiores desafios que se podem colocar a um Estado moderno, eficiente e solidário ao fazer conciliar exigência e rigor orçamental com respeito pelos valores da universalidade, da equidade e da justiça no acesso a cuidados de saúde de qualidade.”

Adalberto Campos Fernandes

 

Governar a brincar

Maio 25, 2015

“(…) Até que alguém revelou que no ano em curso apenas uma USF havia sido criada, confirmando a arrefecimento da execução de uma medida que todos, até a Troika, haviam recomendado. Chegou a Oposição com seu programa de governo. Propõe a retoma da política de criação de unidades familiares, cem ao longo de quatro anos. Programa modesto, dando médico de família a pouco mais de quinhentos mil cidadãos hoje sem cobertura, implicando mobilizar quase 800 médicos, dos quais apenas um quarto seriam novos diplomados. Investimento relativamente pequeno, em parte elegível para apoio comunitário. Medida pautada pelo rigor orçamental, sem falsas promessas, exequível e ao alcance dos nossos meios, desde que cuidadamente preparada. A proposta da oposição é conhecida ao fim da manhã.

De tarde, no debate parlamentar era urgente responder. Contas passadas nas costas de um envelope, o Primeiro-Ministro, categórico, ajudado pela sua magnífica colocação de voz, promete até final do ano esgotar a lista dos 1,2 milhões de Portugueses alegadamente sem médico de família, para tal reintegrando no activo 400 médicos recentemente reformados.

Vamos a contas: admitamos que o Governo mobiliza mesmo esse número de médicos, esqueçamos por agora os enfermeiros, o pessoal administrativo, as pequenas obras e o mobiliário e outro equipamento necessário e usemos uma média de três consultas por habitante/ano. Cada médico reformado teria que realizar 9 mil consultas num ano, novecentas por mês, descontando férias e feriados, 40 por dia. Já imaginaram? Num dia de seis horas laborais, com intervalo de dois minutos entre consulta, sem perdas de tempo nem idas ao WC, cada médico poderia atribuir a cada doente apenas 7 minutos. Tendo que cumprimentar o doente, registar os dados da consulta no computador, emitir a prescrição, talvez restasse 1 minuto para a anamnese. Teria que dispensar a observação. Uma verdadeira epopeia que colocaria a medicina nacional nos píncaros da competitividade mundial. Claro que tudo isto é a brincar. Eu brinco com o leitor, como o Governo brinca com o Povo a anunciar que até final do ano esgotará a lista de utentes sem médico de família, como brinca com os 400 profissionais que pensa atrair para o activo com apenas um terço do ordenado. Um governo brincalhão.”

António Correia de Campos

 

Há vida para além da morte

Maio 1, 2015