Archive for the ‘Política’ category

Para a direita radical o Papa é do MRPP

Abril 30, 2016

“É muito interessante ver aquilo que são os bas-fonds da nossa direita radical, entre comentários, blogues e twitter.


Peço desculpa ao Papa por usar o seu Santo nome em vão. Peço desculpa ao MRPP ao chamá-lo para estas coisas entre a santidade e asneira. Mas é muito interessante ver aquilo que são os bas-fonds da nossa direita radical, entre comentários, blogues e twitter.

Não, não estou a falar do PNR, estou a falar de apoiantes do PSD e do CDS, do extinto PAF, muitos “jotas”, mas também gente adulta que enfileirou nos últimos cinco anos do “ajustamento”, vindas de alguns think tanks e amadores da manipulação comunicacional que se formaram nestes anos. São também alguns colunistas no Observador, no Sol, no extinto Diário Económico e nos sitesque estes jornais patrocinam com colaboração gratuita para formar uma rede de opinião que funciona para pressionar os órgãos de comunicação que, muitas vezes, de forma muito irresponsável, a ampliam em “informação” como oriunda das “redes sociais”. Não são um grupo muito numeroso, mas escrevem todos os dias e em quantidade, parecem estar de patrulha nas caixas de comentários e no twitter e são muito agressivos. Não se coíbem em usar citações falsas ou manipuladas, boatos, calúnias e insultos (Costa é o “monhé” e o “chamuça”, por exemplo). É na vida política portuguesa um fenómeno novo e não adianta dizer que o mesmo existe à esquerda, porque não é verdade.

Não estou a falar de um obscuro subproduto das proclamações mais comedidas de partidos como o PSD (embora raras) ou do CDS, mas de uma realidade mais profunda e espelhar visto que o tom e o mote são dados por colunistas e “pensadores” de direita mais elaborados. Para eles, Portugal é socialista desde o 25 de Abril, com excepção dos anos do governo Passos-Portas, e é governado por uma “oligarquia” de políticos e sindicatos ao serviço do tamanho do estado, como garantia dos seus proventos. Este conceito de oligarquia é interessante porque inclui os funcionários públicos, o aparelho sindical, todos os que fazem greve em empresas públicas, e todos os políticos que são apresentados como o braço armado dessa oligarquia. A oligarquia muito curiosamente não inclui os grandes empresários, os homens da finança, os lóbis junto do poder político, como os escritórios de advogados de negócios, e os donos dos offshores. Bagão Félix faz parte da oligarquia, junto com Carvalho da Silva, Boaventura Sousa Santos, e Ana Avoila, mas Eduardo Catroga, Carrapatoso, Ferraz da Costa, Bruno Bobone e Paulo Portas não.

O PCP é o Diabo, e o seu anticomunismo é o da Guerra Fria em versão salazarista, embora sejam muito amáveis com Putin (como Trump, aliás), com os chineses e com subprodutos do comunismo de partido único como o MPLA. Gostam do Partido Comunista Chinês, dono da EDP e da REN e de muito mais coisas, e não gostam do PCP. O BE, para eles, é hoje quem governa Portugal junto com os comunistas e são uma “raparigada” esganiçada. O PS tornou-se um partido da esquerda radical e tudo o que não alinhe com o “ajustamento” e a sua ideologia, são perigosos esquerdistas e socialistas. Depois de mim, e de Manuela Ferreira Leite, soma-se agora, no PSD, José Eduardo Martins que, como todos sabem, é um perigoso esquerdista. São todos também “socratistas”. A julgar por aquilo que eles consideram esquerdista, radical, comunista, o nosso bom Papa Francisco é do MRPP. Pior ainda, está muito à esquerda do MRPP.

(José Pacheco Pereira, in Público, 30/04/2016)

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“Quizás, quizás, quizás”

Abril 29, 2016

“O atual PSD faz lembrar aquela música cubana interpretada, entre outros, por Nat King Cole, que reza assim: “Y así pasan los días; Y yo, yo desesperado; Y tú, tú contestando; Quizás, quizás, quizás.”

Desde que ganhou as eleições mas perdeu o poder, o PSD anda desconsolado, sorumbático, incapaz de reagir à realidade das coisas. Fosse uma pessoa e devia ir ao médico pedir uns antidepressivos ou, pelo menos, andar de bicicleta, comer gengibre, tomar uns suplementos de ginkgo biloba, sei lá. O estado em que está é penoso. Não tem propriamente uma estratégia, tem um estado de alma deprimente que não se cansa de anunciar ao país. Diz mal de tudo, insistindo que no seu tempo é que era bom. Conversa que os portugueses conhecem bem. Vegeta num “quizás, quizás, quizás”, esperando que as coisas corram mal ao Governo. Mau agouro que não se cansa de repetir. Mas também para o qual tenta contribuir, na Europa, no mundo, onde ainda consegue ter alguma influência. Não é bonito de se ver.

Numa tal prostração não parece ter ânimo para pensar. Pois se alguém o fizesse depressa perceberia que este comportamento não leva a lado nenhum. Por vários motivos. Desde logo porque a geringonça funciona. Não à maneira da velha política e seus jogos de hipocrisia. Aliás, o próprio epíteto, inventado por Paulo Portas como muito depreciativo, tornou-se num “petit nom” afetuoso. Do mesmo modo, as constantes exigências de votos de fidelidade absoluta não surtem efeito. A direita não entende a inovação. Os quatro partidos estão unidos no essencial, mas assumem as suas divergências particulares. O PS acha que consegue reformar a Europa por dentro, como é próprio da social-democracia, a restante esquerda quer sobressaltos, como cabe a partidos mais radicais. Está bem assim. Ao contrário da velha política, que numa coligação impunha que se escondessem as diferenças, na atual não há nada a esconder. Vide o CDS no anterior governo.

Hoje temos uma vida democrática mais dinâmica e sobretudo mais honesta. E também mais robusta. Ninguém tem de abdicar de nada. Ninguém tem de engolir sapos. O que só dá força ao acordo e promete que o mesmo está para durar. E, já agora, da forma como as coisas têm corrido, mesmo que um dia algum facto imponderável imponha o fim do acordo à esquerda e novas eleições, estes partidos sairão reforçados. Porque provaram que têm utilidade, não são só má-língua. O PSD não se iluda.

O outro motivo, tão ou mais forte, diz respeito ao comportamento do novo Presidente da República. Não passa dia em que Marcelo não tire o tapete a Passos Coelho, não menorize a sua birra infantil, não sugira outra atitude ao partido em nome da pacificação do país. Cada elogio de Marcelo a António Costa, e têm sido muitos, atira Passos Coelho para o canto, para a irrelevância, em que pelos vistos gosta de estar à espera de um milagre.

Com poucas semanas de mandato, embora bastante frenéticas diga-se, Marcelo já conseguiu um outro feito. Apagou aquela figura esguia e cinzenta que durante décadas andou a puxar o país para baixo. Ainda se lembram do tristonho Cavaco? Talvez mesmo só Passos Coelho que perdeu o seu maior apoio.

O estratégico Marcelo Rebelo de Sousa quer afastar Passos Coelho para de seguida trazer o PSD para o centro e assim dar-lhe novo folgo e oportunidade de regresso ao poder. Não há outra maneira sob risco de o CDS subir aquilo que o PSD vai descendo. Mais cedo ou mais tarde haverá quem no PSD entenda que isto é claro e inevitável.”

Leonel Moura

É preciso avaliar o que fizeram a Portugal

Abril 27, 2016

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“Sucesso das exportações, saída limpa, ajustamento, reformas, recapitalização da banca, aumento do turismo, criação de emprego, emigração, pagamento da dívida ao FMI, foram tantos os sucessos de Portugal em tão pouco tempo que apetece perguntar porque nos sentimos tão mal.

Se exportamos tanto e criamos tantos empregos como é que isso é possível sem que tanta riqueza produzida e vendida não se apareça reflectida no crescimento? Se tivemos uma saída tão limpa porque razão teremos de andar vários anos a recuperar da caca que foi feita? Se foram feitas tantas reformas em tão pouco tempo, incluindo uma profunda reforma do Estado apoiada num guião que pagámos ao FMI porque se fala tanto de mais reformas?

A troika e, em particular, técnicos anónimos e ambiciosos da Comissão e do BCE, usaram Portugal para testar as suas teses académicas, durante quatro anos os portugueses foram ratinhos de laboratório ao serviço da elaboração de teses e de papers, o ridículo da situação foi ver um ministro das Finanças, um economista cinzento campeão de papers, a escrever o prefácio da obra inspiradora da politica económica neo-salazarista que nos foi imposta.

A experiência ainda não acabou, parece que agora é a banca portuguesa que está no banco de testes. A dimensão da economia portuguesa é a ideal para realizar este tipo de experiências, se a coisa correr mal não tem grande impacto e há por cá uns políticos ambiciosos dispostos a chegar ao poder a qualquer custo, não hesitando em atribuir a outros as culpas pelos erros alheios. Essa postura traidora ser-lhes-à paga em apoios financeiros e idas a Berlim ou a Frankfurt.

Bancos pequenos em situação difícil, bancos médios com problemas de financiamento e um grande banco público com carências de capital, uma oportunidade única para testar as regras europeias da concorrência e para que os técnicos do BCE façam experiências de falências controladas com os custos suportados pelas próprias cobaias. Acontece com Portugal o que sucede com os condenados à morte na China, no fim da experiência ainda são os portugueses a pagar a bala.

É tempo de o país parar e reflectir, de pensar o que se passou realmente, saber qual foi o papel de todos os intervenientes, mortos ou vivos, residindo em Portugal ou trabalhando em Washington, políticos portugueses ou académicos de Harvard, instituições nacionais ou gabinetes escondidos no BCE, na Comissão ou no FMI. 

É preciso avaliar o custo e os benefícios do que foi feito, saber o que nos foi imposto e o que foi decidido pelos nossos neo-salazaristas a coberto do estatuto de protectorado, as reformas que foram feitas, as que não foram feitas e as que ficaram por fazer, o papel dos governos, de Cavaco Silva e de Durão Barroso no processo político que conduziu ao resgate e, posteriormente, às sucessivas alterações secretas do memorando.

Sem se perceber o que se passou não faz sentido falar em reformas ou em consensos.”

O Jumento

O 25 de Abril e a vitória dos abutres

Abril 27, 2016

 

“As chamadas “revoluções” são, na maior parte dos casos, a substituição de um grupo que tinha constituído uma linhagem por um outro, normalmente de bastardos, de segundos filhos, de arrivistas. Em Portugal foi assim com a crise de 1385, com a restauração de 1640, com a revolução liberal, com a República, com o Estado Novo. Com o 25 de Abril de 1974 não foi diferente.

Os “capitães de Abril” correspondem aos conjurados de 1640. Foram instrumentos. Os conjurados esgotaram-se no momento em que entregaram o poder ao Duque de Bragança, acobardado em Vila Viçosa. Os capitães, depois de se terem eliminado uns aos outros (como aconteceu aos do 28 de Maio de 1926) entregaram o poder aos políticos que constituíram o Bloco Central, tal como os militares vindos de Braga o tinham entregado a Salazar, a Cerejeira e a uns lentes de Coimbra, herdeiros do miguelismo que se crismou de integralismo, ao serviço da chamada Confederação dos Interesses Económicos e dos latifundiários.

Falar do 25 de Abril é falar do pós 25 de Abril e de como os “filhos segundos e colaterais”, dos chacais que tomaram de novo conta do poder em Portugal. Diga-se, em abono da verdade, que a substituição de casas reinantes em Inglaterra não é diferente deste modelo e que a revolução francesa seguiu o mesmo figurino, como as revoluções russas, a de 1917 e a de Putin de há poucos anos. No final da agitação revolucionária, dos PREC’s de cada um, os poderes reconstituem-se como as baratas que regressam após uma desinfestação.

Refletir sobre o 25 de Abril é identificar os que, como os abutres, estavam a aguardar uma oportunidade. No seu caso, uma oportunidade para se fazerem comendadores, banqueiros, agentes internacionais, concessionários de obras públicas, mestres de leis, compradores dos bens do Estado postos em leilão, como já havia acontecido no vintismo do século XIX.

O Bom do 25 de Abril.

O 25 de Abril de 1974 provocou dois grandes e positivos abalos no velho tronco da história de Portugal:

– A democracia liberal e libertária. Pela primeira vez os portugueses foram considerados como cidadãos. O 25 de Abril entregou Portugal aos portugueses. As escolhas posteriores são dos portugueses. Esse extraordinário feito teve como custo associado o de revelar as nossas fraquezas, os nossos baixos níveis de cidadania, as deformações causadas por séculos de fatalismo, de sebastianismo, de crença em que as divindades resolverão os nossos problemas. O povo em geral, diga-se, prefere ir a Fátima e ao Futebol do que ir às urnas votar.

– O problema colonial. O segundo grande assunto resolvido pelo 25 de Abril foi o problema colonial, que se arrastava desde que os republicanos do século XIX promoveram a excitação patriótica contra o Ultimato inglês. A questão colonial era como o catarro de um fumador. Os governos gostavam de fumar – isto é de ter colónias – mas não sabiam como resolver o problema do catarro. O 25 de Abril resolveu esse problema. Acabou-se o fumo, mas resta algum catarro de ressentimento.

Resolvido o problema da responsabilidade (mais do que o da falta de liberdade) e o das colónias, Portugal voltou à velha e histórica questão da chegada ao poder de uma nova matilha que reproduz os comportamentos da anterior, simplesmente com mais fome e ansiedade. Logo ainda com menos escrúpulos.

Os bárbaros tomam a cidade – O pior do 25 de Abril

– A reprivatização da Banca, com a vinda dos Espirito Santo, nobilitados pelo Estado Novo, a criação do BCP, uma aliança entre a Opus Dei e os arrivistas que defenestraram os industriais e banqueiros nortenhos mais antigos (Cupertino de Miranda e Pinto Magalhães, p.ex), com os regressos triunfais de salvadores como Champalimaud e Melos e respectivas cortes, que iniciaram a espanholização do sistema financeiro e a transferência da actividade produtiva para a especulativa.

– A destruição do tecido produtivo nacional na indústria e na agricultura como condição para a adesão à CEE e ao Euro. A distribuição dos “Fundos Estruturais” pelo grupo escolhido para nos entregar à penhora, com as brutais transferências de populações e de riqueza do interior para o litoral. O endividamento público e privado, com as respectivas PPP. Foi este o modelo com que nos apresentamos às portas da sopa dos pobres da CEE.

– O cavaquismo, que representou a tomada da cidade pelos bárbaros. O regime do novo-riquismo tem um retrato à la minute: o BPN e um credo: o Compromisso Portugal! Tanto o BPN como o Compromisso Portugal eram uma burla. Nem BPN era um banco, nem o compromisso era com Portugal.

Pelo meio disto ocorreram outros assaltos de bastardos ao poder, mas nenhum tão prolongado e tão organizado como o do cavaquismo.

O monumento, o emblema e os heróis do pós 25 de Abril

As épocas mais marcantes da nossa História têm, cada uma, o seu monumento. Os Jerónimos para as descobertas, Mafra para o colonialismo do Brasil, o “monumento do empurra”, em Belém, para o Estado Novo. O monumento do pós 25 de Abril é a EDP!

A entrega do sector essencial da produção e distribuição de energia a um Estado estrangeiro feita pelo governo de Passos Coelho e Paulo Portas é a pedra de fecho do cavaquismo. Em vez da tradicional estrofe, «Ditosa Pátria que tais filhos tem», o estandarte do cavaquismo bem poderia ter o lema: «Tudo se vende, até a luzinha para ler à noite!»

Os cravos, como símbolo do 25 de Abril e da reconquista da dignidade por um povo, foram substituídos pelos dois submarinos que o mais escorregadio dos arrivistas comprou. O Tridente e o Arpão servem para defender as barragens e as torres de distribuição de electricidade dos chineses, os aeroportos dos franceses, as pontes dos ingleses, perante a apatia da maioria e o aplauso dos inquisidores da religião única do neoliberalismo.

Falar dos heróis do pós-25 de Abril é falar da ala dos namorados que se reuniu à volta de Cavaco Silva e do seu condestável Oliveira e Costa, da sua Mocidade Portuguesa com Passos Coelho e Portas. Todos gozando de boa saúde e amplas liberdades!

São os únicos? Claro que não… com uma resma de papel ao lado cada um pode fazer a sua lista dos que constituem hoje a classe reinante em Portugal…”

Carlos de Matos Gomes

25 de Abril outra vez!

Abril 26, 2016

“Sem ter alguma vez imaginado dedicar-me à política e reconhecendo nela a exuberância dos pecados mais sórdidos que existem na humanidade (como a recente votação do impeachment de Dilma Rousseff no Parlamento brasileiromostrou a cores e em directo), não percebo como se pode estar tão distante dela e tão indiferente perante ela como está a maioria da população portuguesa.

Posso desfiar uma lista de razões possíveis para essa desvinculação (o descrédito dos políticos, o caciquismo dos partidos, o funcionamento opaco das instituições, as promessas traídas, a corrupção, a propaganda do “não há alternativa”, etc.), mas é só uma lista. Do outro lado, também há uma lista de tarefas exaltantes que estão ali, à nossa espera, à espera da nossa participação, da nossa palavra, da nossa acção, e para as quais a política parece ser, se não a única, pelo menos uma das soluções possíveis e uma das acções necessárias.

Vem isto a propósito do 42.º aniversário do 25 de Abril que celebrámos ontem e que, para muitos milhares de portugueses, talvez milhões, ainda está longe de ser apenas uma data histórica e ainda rima com esperança, com liberdade, com justiça e com o sonho de um mundo melhor. É isso que vemos nos olhos brilhantes uns dos outros quando cantamos a Grândola.

George Steiner, citando o mesmo discurso de Saint-Just onde este diz que “a felicidade é uma ideia nova na Europa”, dizia que, durante a Revolução Francesa, os cidadãos sentiam não só que o futuro lhes pertencia, mas que o reino da justiça estava ali, à sua frente. Não era algo longínquo e inatingível, mas uma coisa que ia acontecer já, ao virar da esquina, “segunda-feira de manhã”. Todos os grandes momentos da história da humanidade são assim, momentos de possibilidade, de esperança, onde a justiça e a felicidade podem acontecer, não apenas para os nossos filhos, para quem sempre os sonhámos, mas até para nós, segunda-feira de manhã.

Durante os últimos anos, anos de chumbo, anos de “there is no alternative“, onde nos venderam como objectivo nacional o empobrecimento material e como virtude o empobrecimento moral da subserviência, houve alturas em que a política pareceu, mais do que um beco sem saída, um sítio mal frequentado por excelência e a governação uma mera capa de escroques e bajuladores, sedentos de gorjetas e prebendas.

Felizmente, o ar clareou e hoje podemos festejar um regresso à política. Não a política do servilismo, que consiste em obedecer, dobrar a espinha aos mais fortes e recolher as migalhas que caem da mesa, mas a política dos cidadãos, que consiste em tentar construir um futuro melhor.

Não penso de todo que o afastamento da política por parte dos cidadãos venha da dificuldade do empreendimento. Pelo contrário. O afastamento vem do sentimento de que o jogo está viciado e que a batota se instalou, não dos obstáculos que nos surgem à frente. Afastados os batoteiros e limpa a mesa, os obstáculos são bem-vindos. E há muitas conquistas que merecem o nosso esforço. Aqueles mesmos objectivos que os de antes nos diziam que eram impossíveis ou mesmo perniciosos: pleno emprego, fim da pobreza, combate às desigualdades, bem-estar para todos, combate à corrupção, protecção do ambiente, empresas sustentáveis, dignidade no trabalho, acesso universal à educação e à cultura, permitir que qualquer criança seja tudo o que pode ser independentemente da família e do bairro onde nasceu, tornar a administração mais eficiente, promover os direitos humanos e a paz. A lista é infindável, até porque não se esgota nas nossas fronteiras, e é a melhor lista de tarefas que existe no mundo.

A seguir ao 25 de Abril a felicidade era uma ideia nova em Portugal. E, por essa razão, porque sabíamos o que queríamos e o que era possível, porque tínhamos vislumbrado a felicidade e a justiça, conseguimos imensas vitórias, pelas quais devemos congratular-nos e agradecer aos muitos cidadãos e aos muitos políticos que lutaram por elas. Mas houve um momento onde nos esquecemos dessa política nobre, e deixámo-nos deslizar para uma política que foi apenas negócio e burocracia, desencanto e desistência.

Neste aniversário do 25 de Abril, pela primeira vez em muitos aniversários, sentimos que podemos fazer mais, que a política tem muitos desafios difíceis para nos colocar. E não há nada mais mobilizador do que um desafio.

Hoje vemos na Europa milhares de jovens que aderem a movimentos terroristas milenaristas, que oferecem sofrimento e morte sem fim. Fazem-no porque aí encontram uma identidade, a pertença a um grupo, uma fé, um projecto que os transcende e ao qual podem sacrificar a vida. Estes jovens não encontram nas suas vidas e nos seus bairros nada de mais exaltante que os motive. Mas existem mil desafios à nossa frente para os quais a política tem de conseguir mobilizar os cidadãos em geral e os jovens em particular. Hoje, podemos pensar que esse sonho está outra vez ao nosso alcance. Não o desperdicemos.”

José Vítor Malheiros

A direita patriota contra os portugueses

Abril 23, 2016

“Temos um Governo que se atreve – imagine-se – a ter um programa sufragado democraticamente que traça uma política que rompe com a austeridade expansiva do empobrecimento.

Temos um Governo do Estado soberano português que se atreve – imagine-se – a criticar Bruxelas, a defender Portugal.

Temos um Governo que se atreve- imagine-se- a apresentar um verdadeiro plano nacional de reformas em matéria de intervenção, de produtividade e competitividade, de endividamento da economia e reforço da coesão e igualdade social, esta última destruída nos últimos quatro anos.

Temos um Governo que se atreve – imagine-se – a traçar um outro caminho no que toca à educação, à saúde ou à segurança social.

Temos um Governo que se atreve – imagine-se – a investir na qualificação dos portugueses como consta do plano nacional de reformas, em cerca de seis mil milhões de euros. Um Governo que sabe que o país não aguenta mais o desprezo pela promoção do ensino secundário enquanto patamar mínimo de qualificações.

Temos um Governo que se atreve – imagine-se- a defender que é imperioso combater o insucesso e abandono escolar e a qualificação de adultos, com medidas como a atribuição de 70 mil bolsas no ensino superior, o reforço do ensino secundário profissional e a atribuição progressiva de manuais escolares gratuitos no ensino básico e secundário. Um Governo que inverte democraticamente o ataque à segurança social, à facilitação dos falsos recibos verdes, que põe fim à inércia perante os desencorajados.

Perante as críticas da comissão europeia – nomeadamente quanto ao aumento do salário mínimo – temos finalmente um primeiro-ministro que levanta a voz e que não faz de criado, afirmando claramente que recusa um modelo de país baseado em baixos salários e que a batalha pela igualdade continua.

Temos finalmente um primeiro-ministro que diz isto: “a batalha pela igualdade é permanente, já a travámos antes do 25 de Abril de 1974 e temos de continuar a travá-la. Quando vemos alguns cá dentro ou na Europa a dizerem que em Portugal nós não nos desenvolveremos aumentando o salário mínimo nacional, porque estamos condenados a viver num país de baixos salários e de pobreza, temos de dizer que não aceitamos”.

Perante este Portugal defendido, temos uma direita comunitária no sentido hipócrita da palavra: uma direita que se desdobra em alta voz a exigir um “plano B”, cheia de esperança que ele exista, a roer as unhas para que a execução de um OE que devolve dignidade às pessoas seja substituída pela exigência de austeridade.

Perante este Portugal finalmente defendido sem meias palavras, a direita ao fazer tudo para que a defesa do Estado social nas suas várias vertentes caia em nome do tal “Plano B”, mais uma vez denuncia a sua servidão a Bruxelas, num “internacionalismo europeu” mesquinho, indiferente à consequência de isso mesmo ser uma adesão ao ataque à recuperação da dignidade de quem trabalha continuando pobre.

Patriota, diz de si a direita.”

Isabel Moreira

ISD (Incoerência Social Democrata)

Abril 22, 2016

“Se por cada vez que um responsável político falta à verdade – quem é imaculado e tem o cadastro limpo que atire a primeira pedra – a justiça fosse chamada a intervir, os tribunais estavam ainda mais entupidos e as suspeitas que aguardam acusação ou condenação durante anos infindos acabariam por prescrever.

Vem isto a propósito de o PSD ter instado o Ministério Público a investigar se o ministro das Finanças, Mário Centeno, prestou falsas declarações na comissão de inquérito ao Banif. Não faço ideia se o governante ou outro qualquer depoente cometeram perjúrio. Isso é o que se espera, entre outras responsabilidades, que seja apurado pelos deputados inquisidores. O que ultrapassa os limites do razoável e roça as raias do ridículo é que um partido, seja qual for, por má consciência e para iludir as suas culpas neste cartório – não nos esqueçamos de que PSD e CDS estiveram quatro anos e meio para resolver o dossiê Banif e não o fizeram por razões de natureza puramente eleitoral – recorram ao expediente da judicialização do debate político para, qual biombo, esconderem os seus pecados.

As comissões parlamentares de inquérito estão investidas de poderes judiciais mas o que se julga num Parlamento democrático são responsabilidades políticas. Era bom que os responsáveis partidários, neste caso à direita, atentassem na voz rara da sensatez que Pedro Passos Coelho revelou, por más razões e pior exemplo, é certo, porque estava em causa o cumprimento da Constituição, em fevereiro de 2013. O ex-primeiro-ministro queixava-se do recurso sucessivo aos tribunais – então o Constitucional – pelos partidos da oposição, argumentando que pôr a justiça a decidir sobre derrotas no debate político é uma atitude que “promete conflitualidade e judicialização da política”.

Os mesmos que agora correm para debaixo das saias do Ministério Público são os que no passado recente criticavam, e bem, sindicatos e ordens profissionais por impugnarem nos tribunais decisões políticas cujo julgamento devia ser feito nas urnas, como é próprio das democracias.

Mas, como diz o povo, olha para o que eu digo e não para o que eu faço. Em material de coerência, com o PSD, estamos pois conversados.”

Editorial DN