“Quizás, quizás, quizás”

“O atual PSD faz lembrar aquela música cubana interpretada, entre outros, por Nat King Cole, que reza assim: “Y así pasan los días; Y yo, yo desesperado; Y tú, tú contestando; Quizás, quizás, quizás.”

Desde que ganhou as eleições mas perdeu o poder, o PSD anda desconsolado, sorumbático, incapaz de reagir à realidade das coisas. Fosse uma pessoa e devia ir ao médico pedir uns antidepressivos ou, pelo menos, andar de bicicleta, comer gengibre, tomar uns suplementos de ginkgo biloba, sei lá. O estado em que está é penoso. Não tem propriamente uma estratégia, tem um estado de alma deprimente que não se cansa de anunciar ao país. Diz mal de tudo, insistindo que no seu tempo é que era bom. Conversa que os portugueses conhecem bem. Vegeta num “quizás, quizás, quizás”, esperando que as coisas corram mal ao Governo. Mau agouro que não se cansa de repetir. Mas também para o qual tenta contribuir, na Europa, no mundo, onde ainda consegue ter alguma influência. Não é bonito de se ver.

Numa tal prostração não parece ter ânimo para pensar. Pois se alguém o fizesse depressa perceberia que este comportamento não leva a lado nenhum. Por vários motivos. Desde logo porque a geringonça funciona. Não à maneira da velha política e seus jogos de hipocrisia. Aliás, o próprio epíteto, inventado por Paulo Portas como muito depreciativo, tornou-se num “petit nom” afetuoso. Do mesmo modo, as constantes exigências de votos de fidelidade absoluta não surtem efeito. A direita não entende a inovação. Os quatro partidos estão unidos no essencial, mas assumem as suas divergências particulares. O PS acha que consegue reformar a Europa por dentro, como é próprio da social-democracia, a restante esquerda quer sobressaltos, como cabe a partidos mais radicais. Está bem assim. Ao contrário da velha política, que numa coligação impunha que se escondessem as diferenças, na atual não há nada a esconder. Vide o CDS no anterior governo.

Hoje temos uma vida democrática mais dinâmica e sobretudo mais honesta. E também mais robusta. Ninguém tem de abdicar de nada. Ninguém tem de engolir sapos. O que só dá força ao acordo e promete que o mesmo está para durar. E, já agora, da forma como as coisas têm corrido, mesmo que um dia algum facto imponderável imponha o fim do acordo à esquerda e novas eleições, estes partidos sairão reforçados. Porque provaram que têm utilidade, não são só má-língua. O PSD não se iluda.

O outro motivo, tão ou mais forte, diz respeito ao comportamento do novo Presidente da República. Não passa dia em que Marcelo não tire o tapete a Passos Coelho, não menorize a sua birra infantil, não sugira outra atitude ao partido em nome da pacificação do país. Cada elogio de Marcelo a António Costa, e têm sido muitos, atira Passos Coelho para o canto, para a irrelevância, em que pelos vistos gosta de estar à espera de um milagre.

Com poucas semanas de mandato, embora bastante frenéticas diga-se, Marcelo já conseguiu um outro feito. Apagou aquela figura esguia e cinzenta que durante décadas andou a puxar o país para baixo. Ainda se lembram do tristonho Cavaco? Talvez mesmo só Passos Coelho que perdeu o seu maior apoio.

O estratégico Marcelo Rebelo de Sousa quer afastar Passos Coelho para de seguida trazer o PSD para o centro e assim dar-lhe novo folgo e oportunidade de regresso ao poder. Não há outra maneira sob risco de o CDS subir aquilo que o PSD vai descendo. Mais cedo ou mais tarde haverá quem no PSD entenda que isto é claro e inevitável.”

Leonel Moura

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