ISD (Incoerência Social Democrata)

“Se por cada vez que um responsável político falta à verdade – quem é imaculado e tem o cadastro limpo que atire a primeira pedra – a justiça fosse chamada a intervir, os tribunais estavam ainda mais entupidos e as suspeitas que aguardam acusação ou condenação durante anos infindos acabariam por prescrever.

Vem isto a propósito de o PSD ter instado o Ministério Público a investigar se o ministro das Finanças, Mário Centeno, prestou falsas declarações na comissão de inquérito ao Banif. Não faço ideia se o governante ou outro qualquer depoente cometeram perjúrio. Isso é o que se espera, entre outras responsabilidades, que seja apurado pelos deputados inquisidores. O que ultrapassa os limites do razoável e roça as raias do ridículo é que um partido, seja qual for, por má consciência e para iludir as suas culpas neste cartório – não nos esqueçamos de que PSD e CDS estiveram quatro anos e meio para resolver o dossiê Banif e não o fizeram por razões de natureza puramente eleitoral – recorram ao expediente da judicialização do debate político para, qual biombo, esconderem os seus pecados.

As comissões parlamentares de inquérito estão investidas de poderes judiciais mas o que se julga num Parlamento democrático são responsabilidades políticas. Era bom que os responsáveis partidários, neste caso à direita, atentassem na voz rara da sensatez que Pedro Passos Coelho revelou, por más razões e pior exemplo, é certo, porque estava em causa o cumprimento da Constituição, em fevereiro de 2013. O ex-primeiro-ministro queixava-se do recurso sucessivo aos tribunais – então o Constitucional – pelos partidos da oposição, argumentando que pôr a justiça a decidir sobre derrotas no debate político é uma atitude que “promete conflitualidade e judicialização da política”.

Os mesmos que agora correm para debaixo das saias do Ministério Público são os que no passado recente criticavam, e bem, sindicatos e ordens profissionais por impugnarem nos tribunais decisões políticas cujo julgamento devia ser feito nas urnas, como é próprio das democracias.

Mas, como diz o povo, olha para o que eu digo e não para o que eu faço. Em material de coerência, com o PSD, estamos pois conversados.”

Editorial DN

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