As lambadas que nunca te dei

“Ai mãezinha, querem dar uns tabefes no nosso querido menino. 

“A liberdade de expressão é um direito, mas se o meu bom amigo, o doutor Gasbarri [que organiza as viagens do Sumo Pontífice] ofender a minha mãe, vai levar um murro. Para tudo há limites.” Eu gosto deste Francisco, é tão humano que até é Papa.

Vivemos tempos viscosos, de opacidade e canalhada. O cínico é louvado como intelecto, a cobardia representada como modelo de sensatez, e a deslealdade é um acto de fina diplomacia.

Uma prosa sobre nada, uma retorica hermética ou uma obra artística esdrúxula, são seguramente experiências sensoriais de uma erudição superlativa. 

O que interessa, é garantir guarida no circuito mafioso que define os padrões do que é arte, criação, intelligentsia. Ou seja, estamos lixados.  

A este bando, a gente de pé na rua, chama corja. Estes rufias de colarinho branco e mão tratada, falta-lhes o necessário para se comportarem de forma erecta.

Copiados por consanguinidade entre pares e primos, tios e afilhados, esta tropa fandanga que só por azar não nasceu francesa, por uma estranha crença, imagina-se intangível e por direito impune e imune. 

Para eles o insulto há distância, é um estilo protegido, é mal cheiroso em luva branca, é tiro de tocaia, sempre sem expor o corpinho. Se o homem não reage está morto, se reage é um caceteiro.   

Artistas encalhados, jornalistas por empréstimo, e políticos ressentidos, ilustres desconhecidos de que não se conhece um espasmo de mérito, quando se juntam, é seguro que há cadáver desmembrado. 

“O gajo é maricas, a tipa já dormiu com as redacções de toda a imprensa nacional e regional, o sujeito é um bêbado, a criatura é uma drogada, o imbecil não sabe escrever mas é filho do indivíduo que é corrupto até á medula, só tem o subsídio porque é da situação, beltrano é um ladrão e mentiroso, fulana vai á televisão porque é amante do ministro e casada com o produtor”

Porém, quando por acaso se encontram, lançam-se em abraços de emocionados elogios, para logo que um deles vire costas, alguém afirmar: “Pensava que já tinha morrido!” 

São sombras ao serviço de manchas. Lançam a pedra e escondem a mão.

Quando lhes convém sacam da santa democracia para exigir aprumação e respeitinho, mas só quando lhes convém, porque em tudo o resto chafurdam no pantanal da difamação, da facadinha nas costas, dos salamaleques e lisonjas de influências.

Esta coisa de expressão, crítica e cultural, não é para meninos, upa, upa, é necessário, muita anquinha, muita embocadura, muito cadáver enterrado. Isto é malta de outra espécie, gente com classe.

Vamos ver se entendi bem. Um cronista verteu sobre cultura e foi acrescentado ao texto pensamentos sobre a personalidade e intenções do Ministro. Ou seja, caluniou o homem, lançou a suspeita sobre a honestidade da sua postura em relação ao cargo. O Homem que era Ministro leu e reagiu.

Sejamos claros, o homem que era Ministro, estava sob mira da corja, que desde o primeiro dia não o suportava no cargo, o resto foi apenas um pretexto.

Logo uns e outros, novos meninos cretinos e antigos velhos imbecis, rasgando vestes, em defesa do seu direito ao insulto sem resposta, lançaram-se ao homem ministro.

Prefiro mil vezes o homem João Soares que defendeu o seu direito á indignação, recusando uma selectiva avaliação da liberdade de expressão, demonstrando que os cargos se entregam mas a honra não, de que a companhia de uns biltres.

Na freguesia da Ajuda, terra empoleirada e de gente firme, pinguinhas que rabiscasse bilhetinhos de mal dizer, ou urdisse boataria de pataréu, estava desgraçado.

Era certinho que na porta de admissão ao “Sólido” no cimo da Calçada do Galvão, tinha uns tabefes afiançados pela vítima ofendida.

O conflito, tinha direito a falanges de apoio, a pelo menos um desmaio, um “larga o homem” dito com compaixão, e a vários “epá não era p’ra ti” proferidos com genuína aflição.

Quando percebia que o bate boca afrouxava, o marreco, também conhecido por Carlos, responsável pelo bar, desafiava os antagonistas para umas ginjinhas, sob a vigilância trocista do Zé Dillinger, bandido de bairro, criado entre a Boa Hora e o Pátio das Vacas, e homem respeitado com a veneração merecida ao killer americano, de quem sacou apelido e temor. 

Recordo, o velho Dias, trabalhador da estiva, que na sua juventude, burlado nas partilhas de um trabalho em loja de ourives, foi de clandestino até ao Brasil, para acertar contas com o sócio para lá fugido, nos dizer: “ Há coisas que não se anunciam, fazem-se e já está…”

Se o Papa Francisco pode garantir uns murros sem temer que Deus o demita, não posso eu distribuir umas latadas por quem me difamar? Creio que sim!”

Artur Pereira

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