O bacanal do Panamá

“Os “Panama Papers” são uma fuga sem precedentes de dados copiados de uma das maiores quatro firmas de advogados especialistas em “offshore”, sediada no Panamá, a Mossack Fonseca. As outras três são: a Westwood Martins, a Mourant Guimarães e a Alderney Silva.

Comecemos pelos responsáveis pela fuga de informação. Segundo li, as cópias foram obtidas por uma fonte anónima do jornal alemão “Suddeutsche Zeitung”, que traduzindo para português significa Correio da Manhã. Não se esqueçam de, chegados à Baviera, desejar Gutten zeitung, para todos. Vai ser um sucesso.

Como em todas as fugas de dados há sempre alguém maior por detrás. Os “Panama Papers” são um volume brutal de mais de 11,5 milhões de documentos que estão disponíveis para serem consultados pelos jornalistas de mais de 300 jornais, etc. Portanto, isto só pode ser obra dos grandes magnatas do café.

Não me vão levar a mal, mas este processo, dos jornalistas filtrarem e escolherem os “Panana Papers” para depois nos mostrarem as coisas como são, não me deixa muito descansado. Bem sei que nestas alturas a nossa comunicação social transforma-se e – tal como de repente foram todos Charlie – agora são todos jornalistas de investigação à caça dos poderosos. São todos Panamá Charlie. É aproveitar o embalo e vamos ver os jornais desportivos a fazer um artigo de fundo sobre a Doyen, ou o Expresso a publicar um trabalho de investigação sobre o Bilderberg. Na realidade, nada disto é novo. Não é graças a isto que existe capitalismo? Vamos fazer queixa a quem? Ao Junker? A Lagarde? Ao Goldman Sachs? Ao FMI? Pois.

Assunção Cristas veio logo dizer, antes que revelem os nomes dos portugueses que estão na lista (Jacinto Leite Capelo Rego pode constar), que é preciso ter calma e “separar entre o que é competitividade fiscal e outra coisa que é o uso de esquemas para esconder actividades ilícitas.” De salientar a mão leve (e preocupação com privacidade) do CDS com os senhores com dinheiro nos “offshore”, quando ainda há pouco, o mesmo partido queria mão pesada para todos os aldrabões do RSI e até usaram violação do sigilo bancário para os apanhar.

Com o RSI partem do princípio que os pobres estão a roubar, portanto têm que provar que não estão. Com os ricos dos “offshore” – calma, pode ser legal, não se pode julgar assim as pessoas! – Ou seja, se um sujeito recebe o RSI e tem TV a cores, é suspeito. Há ali qualquer coisa! Não pode ser, é um aldrabão que nos está a roubar a todos! Ele que prove que é pobre, ou não lhe damos os 180 euros/mês! Se o indivíduo tem mega-iate, seis casas e dois aviões mas declara ordenado de trolha, não é um aldrabão. É um indivíduo competitivo fiscalmente.

Eu tinha uma amiga rica (e benzoca) que se fartava de roubar nas lojas. Uma tarde, em Torremolinos, após ela ter andado no gamanço, perguntei – Não tens medo de ser apanhada? Ela respondeu – Não. Os ricos nunca roubam. Esquecem-se de pagar.”

João Quadros

 
Anúncios
Explore posts in the same categories: Sociedade

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: