“Para quem é bacalhau basta”

“Escreve Ramalho Ortigão: “A língua é tão diferente que não nos entenderíamos se falássemos hoje aos nossos filhos a linguagem que ouvíamos então aos nossos pais. A um copo de vinho do Porto chamava-se “uma pinga de choco”, a um concerto “uma musicata”; era “Zé Pereira” um bombo; de um baile dizia-se “uma súcia”; e um passeio pelo rio acima uma “franciscanada”.

Há um dito muito comum no Porto, e possivelmente em mais zonas do país, que demonstra desprezo ou menor consideração por alguém. É ele “para quem é bacalhau basta”. Na verdade antigamente o bacalhau era um prato consumido pelas famílias mais pobres, pois era um alimento barato, e que a alta burguesia não apreciava. Sendo seco, conservava-se muito tempo.

 

Vem isto a propósito de uma interessante figura da Madalena (V. N. Gaia), da segunda metade do séc. XIX, que frequentava habitualmente os cafés e lugares públicos do Porto. 

Era o António Gomes Moraes da Magdalena, homem com uma extraordinária memória e que gostava de se divertir com os amigos usando este seu dom. Chamavam-lhe o Memorião. Sabia de cor toda a obra da Camões, inclusive os Lusíadas, e enormes textos de outros autores.

Certa noite, no Teatro de S. João, houve um importante sarau de gala em que, durante um intervalo, o poeta Guilherme Braga (1845/1874) declamou, do seu camarote, um poema que foi muito aplaudido. Dado o entusiasmo do público, teve de o recitar segunda vez e de novo com grande sucesso. 

No intervalo seguinte, pelos corredores, as conversas giravam à volta de tão grande talento e os cumprimentos e palmadinhas nas costas do autor eram efusivos. O nosso Moraes, chegando-se perto de Guilherme Braga, afirmou em alta voz que já conhecia aquela peça literária. Todos os presentes, sobretudo o poeta, ficaram paralisados e estupefactos. Seria que Guilherme Braga, tão conhecido como bom poeta, teria copiado aquele poema? Como confirmação do que afirmava o Moraes recitou-a total e correctamente. Foi um momento de perplexidade e todos se viraram para Guilherme Braga esperando a sua reacção. Este, confuso, excitado e, possivelmente vermelho de fúria e vergonha, afirmou que tinha composto aquele poema para essa noite especial e o não tinha dado a conhecer. Para salvar a reputação do poeta, então o Moraes declarou que lhe tinha bastado ouvir duas vezes o poema para o decorar e afirmou que não havia dúvida que o autor era Guilherme Braga. 

Mas, pensarão os leitores, que tem isto a ver com o dito “para quem é bacalhau basta”

Calma! Ainda temos outras histórias a contar antes da explicação. 

Frente ao monumento ao Infante D. Henrique existiu a Sociedade Camilo Castelo Branco, frequentado pelo Porto culto. Uma tarde, em solene sessão, numa data ligada àquele escritor, o Conselheiro José Augusto Correia de Barros (Porto 1835 – 1908) proferiu um discurso, possivelmente muito solene e longo, como era costume na altura. Aliás, este conselheiro era conhecido como escritor, jornalista, político etc. Homem de categoria! Foram recitados versos e textos do homenageado. Depois da sessão a direcção da sociedade ofereceu um copo d’água aos oradores, jornalistas e outros, tendo o Moraes sido convidado. Eis senão quando o Moraes, perante a perplexidade de todos os presentes, reproduziu o discurso do conselheiro de princípio a fim! E como brincadeira ainda recitou uma estrofe dos Lusíadas ao contrário, do 10º. verso para o 1º. E, para mais espanto, repetiu o discurso de outro orador da tarde, Alves Mendes. 

Alguns amigos do Moraes forçaram-no a que oferecesse um almoço na sua terra, pois pretendiam ver o ambiente em que ele vivia. Mas, com a maior franqueza, informou-os que a Madalena era uma freguesia muito pobre e que receava não lhes poder oferecer um repasto ao seu gosto. Porém, eles insistiram e foi marcado dia para esse encontro gastronómico. Chegados à Madalena seguiram para uma tasca onde lhes foi servido um caldo fresco seguido de uma travessa de bacalhau cozido com batatas e cebolas de que pouco comeram. Tomaram por galhofa a prevenção, mas quando viram que a travessa saía da mesa para dar lugar a umas maçãs, sempre perguntaram ao Moraes se aquilo era a sério. 

– Pois não vos disse que a terra não tem recursos? Tendes de sujeitar-vos ao que há em casa. Nesse caso, amigo Moraes mande vir outra vez o bacalhau que nós sem comer é que não ficamos. 

É nossa convicção que o Moraes, tendo sido obrigado a oferecer o almoço, terá, propositadamente, seguido o aforismo popular “para quem é bacalhau basta”

Já no séc. XVII se vendia no Porto o bacalhau, que em 1671 tinha o preço máximo de 25 reis o arrátel (459 gramas). Este peixe era vendido na Ribeira, junto da antiga fonte e só por negociantes devidamente autorizados pela câmara. Os barqueiros e particulares estavam proibidos de transportar para Gaia este portuense pitéu, salvo com licença da mesma.”

Fonte: Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

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