A publicidade a Costa? Passos encarrega-se

“Matos Correia, vice-presidente do PSD, disse ontem: “Não vou descer ao nível do senhor primeiro-ministro.” E ainda: “Não estamos num comício, senhor primeiro-ministro!” Naturalmente, foram palavras que caíram bem aos do Governo.

Talvez Santos Silva, Centeno e o próprio António Costa aplaudissem de pé se a tal palavra, composta, não tivesse sido repetida, ontem e hoje, à exaustão. Houve um deputado da oposição que no seu discurso a disse 9 vezes: “primeiro-ministro”. Com hífen e tudo. Se Costa aplaudisse de cada vez que é tratado pelos adversário por aquilo que é, não faria outra coisa… Hoje. Porque ainda há pouco não era assim.

Hoje, “primeiro-ministro” passou a palavra corriqueira na boca dos deputados da direita. Mas ainda há dois meses era tabu. Lembram-se, em dezembro, de Passos Coelho a evitar? “Este Governo, assim como o seu chefe…” Ou Portas só a usar seguida de acinte? “Senhor primeiro-ministro, vírgula, mas senhor primeiro-ministro que o povo não escolheu”… Pronto, agora já existe. Mas, convenhamos, era escusado a oposição dar pretextos destes para os Governo encher o peito.

Outra palavrinha: geringonça. Desnecessária, a menos, claro, que a direita faça mesmo questão de promover o adversário. Atenção, em si, gosto da palavra. Gosto de palavras que, quando as pensamos fora de prazo, ressuscitam. Um dia, Freitas do Amaral, em discurso que defendia o contrário do que eu pensava, disse: “Que topete!” Adorei. Desde Eça que não ouvia “topete”. Há poucos anos, Eduardo Catroga disse: “pentelho.” Voltei a gostar. Vale muito mais do que a horrível “minudência.” Minudência é daquelas palavras que se enrolam na língua. A palavra pentelho, não.

Geringonça é caranguejola. Gosto, já o disse, da palavra. Começou por me lembrar aqueles brinquedos antigos de lata. Havia-os em carrinhos e lambretas, mas o meu preferido era o carrossel. Muito miúdo, tive um na mão, antes de os conhecer numa feira popular, comigo lá dentro. Mas geringonça é engenhoca que funciona mal. Na tal feira, fiquei uma eternidade de cabeça para baixo numa roda gigante. O motor da geringonça tinha pifado.

Assim, quando a oposição começou a chamar geringonça a este governo, o sangue subiu-me à cabeça. Suspeitei que o Governo não ia lá. Tomava posse mas caía logo no parlamento. Ou, pelo menos, ficava suspenso, com o povo de cabeça para baixo, sem orçamento… Bom, o facto é que foi indigitado, tomou posse, passou no parlamento e, hoje, o OE 2016 vai ser aprovado.

Estas dois episódios à volta das palavras “primeiro-ministro” e “geringonça” acabaram por servir de propaganda ao Governo. Não é esquisito? A insistência neles faz-me até desconfiar. E se for mesmo propaganda, encapotada, mas decidida desde o início com a intenção de promover o Governo?

Lembro que a publicidade, às vezes, vai por caminhos ínvios. O cientista francês Antoinie Parmentier (1737-1813) era adepto da batata, quando esta era mal vista, tida por propagar a peste. Então, Parmentier semeou batata nos arredores de Paris e pôs os campos guardados por tropa, de dia, e abandonados, à noite. Entretanto, difundiu que aquilo era proibido. Acicatado, o povo colheu, comeu e gostou. E, hoje, o Metro de Paris tem uma estação chamada Parmentier, em homenagem ao grande difusor da batata.

E se Passos Coelho, no fundo, só quer ter o nome numa estação do Metro de Lisboa?”

Ferreira Fernandes

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