Passarinhos e passarões, aves de rapina e cucos

“Os orçamentistas não costumam arribar por esta época. Geralmente são passarinhos de outono, quando o OE se discute na AR. Costumam ser papa-moscas-cinzentos, discretos, que saltam do ramo, bicam a minhoca e voltam ao ramo, e passam outubro assim. Nos últimos quatro anos o orçamentista engoliu e calou-se. Este ano, apareceu-nos em pleno inverno, armou-se em piadeira (Anas penelope). Um palmípede, em bando e em chinfrineira.

O orçamentista fartou-se de grasnar, este ano. Que não dava. Passava lá ele, o Orçamento! Bruxelas é que lhe ia cortar o pio, à geringonça… A piadeira, com o aproximar do Carnaval, travestiu-se de abutre. O velho abutre de Sophia, que “alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e os seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas.” O gozo que daria aos orçamentistas que Bruxelas nos fizesse mais pequenos.

Olha, parece que não. Bruxelas faz o seu papel, Portugal faz o seu papel. Até aqui, 50 por cento do que costumava acontecer. Desta vez, estando ambos a cumprir – uma, lá, para cortar, outro, cá, para não deixar ser cortado -, parece que vai chegar-se a acordo, que é o que costuma acontecer a negócios entre iguais. Só cede quem negoceia; só consegue quem tenta. Quem, como antes, ia mais além contra si próprio, era recebido de braços abertos em Bruxelas. Pudera…”

Ferreira Fernandes

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