Um príncipe da República

“Conheci Almeida Santos antes de o conhecer. E fui amigo dele antes dele o saber. Quando cheguei a Coimbra, eu era um rapaz romântico com a mania das grandezas. Levava as minhas referências: Camões, Garrett, Antero. Não fazia a coisa por menos. Mas logo a seguir, o António Portugal, o Zeca e o Goes acrescentaram mais dois ao meu imaginário: Salgado Zenha e Almeida Santos. Naquele tempo eles eram o santo e a senha da esquerda coimbrã. Faziam já parte de uma lenda. Não só a de Coimbra, mas sobretudo a do inconformismo. E a da Académica, que é um pacto para a vida. Para além dos seus outros predicados, Almeida Santos cultivava o fado. E tinha composto uma variação que, pelas guitarras do Brojo e do Portugal, passou a fazer parte da música de fundo da minha geração. Namorei ao som dessa variação. E o nome de Almeida Santos passou a rimar com a boémia e os sonhos da minha juventude. Quando finalmente o conheci, já depois do 25 de Abril, a imagem não se esfumou. A reverência e a referência transformaram-se em amizade. A admiração confirmou-se e reforçou-se. Não já pelo mito, mas pelo homem concreto que fui descobrindo através da multifacetada riqueza do seu carácter, da sua inteligência, do seu talento. E da grandeza do seu coração.

Há tempos, depois de ouvir um texto por ele escrito e lido, numa situação complicada, comentei: são precisos séculos de História para produzir um tipo assim. E a verdade é que não há outro. Duvido que qualquer igreja tenha um cardeal com tanta finura de espírito, tanto sentido da “nuance”, tanta sabedoria. Mário Soares costumava dizer: o Almeida Santos abraça o inimigo. É verdade. Mas também é capaz de, em questões de princípio, enfrentar os amigos. É o que faz o encanto da sua personalidade inconfundível.

Não vou repetir que ele foi um dos mais brilhantes oradores da nossa história parlamentar, além de jurista eminente e legislador incomparável, pode mesmo dizer-se que o grande legislador de regime democrático. Almeida Santos é tudo isso. E já se sabe que não há lei ou decreto a que ele não tenha corrigido as vírgulas e a sintaxe. Mas no mais íntimo de si mesmo ele é um escritor. Um escritor emprestado ao Direito e à Política. Um dos grandes prosadores do nosso tempo. E o que é mais raro: um escritor de ideias.

Há já mais de um século, Antero de Quental perguntava se era possível viver sem ideias. Almeida Santos teima em pensar que não. Não se acomodou nem se acomoda. A juventude do seu espírito leva-o a interrogar-se, a incomodar-se e a incomodar. Preocupar-nos, provocar-nos, acordar-nos.

Ele compreendeu, como poucos, que o grande problema do nosso tempo já não é, como queria Rilke, “o do direito a uma morte própria, que cada um traz em si como um fruto que lentamente amadurece”. Já não é sequer o da pergunta que Hamlet fazia em Elsenor. O ser ou não ser – essa velha questão jamais resolvida – já não se coloca no plano individual; transformou-se no ser ou não ser de toda a Humanidade, de toda a espécie. Estamos a perder o direito à morte própria. E já não temos o direito de fazer a pergunta de Elsenor em termos puramente pessoais. Ou salvaguardamos o futuro ou não ficará ninguém para continuar a perguntar quem somos, de onde viemos, para onde vamos.

Este é, em suma, o grande tema sobre o qual Almeida Santos se interroga e nos provoca.

Perante “os comportamentos que provocaram os desequilíbrios do presente”, Almeida Santos suscita a questão de saber se não estarão “encomendando o catastrofismo dos últimos estádios da decadência das civilizações”.

Dir-se-á que há nele um tom de excessivo pessimismo. Ele retorquiria que nada é pior do que o optimismo beato. “Se eu fosse capaz de ser egoísta – escreve Almeida Santos – e indiferente aos direitos e à felicidade das futuras gerações, podia permitir-me a consolação lorpa, tão em voga, de repousar sobre a convicção de que vai haver espaço vital, água, oxigénio, ozono, floresta, clorofila, emprego e segurança, ordem e liberdade bastantes até ao fim da minha vida. Mas não sou. Daí este impulso para acordar quem dorme. Abanar quem confia. Despertar as reacções saudáveis que estão ao nosso alcance, sabe-se lá por quanto tempo. Ao fim e ao cabo, vistas as coisas desta perspectiva, o optimista sou eu.”

Eu também penso que sim.

Mas além da “angústia ecológica”, das perversões do modelo económico dominante, da explosão demográfica e daquilo a que chama “o apocalipse à solta”, Almeida Santos traz outras inquietações: o flagelo da droga, a prostituição, o tráfico de mulheres e crianças. Um dos textos mais ricos e actuais é o da sua reflexão sobre “as novas contingências do poder político”. É um texto importante, em que o autor mostra não apenas possuir uma informação actualizadíssima sobre a reflexão que na Europa se faz sobre esta questão, como lhe acrescenta uma contribuição pessoal, com novas pistas e, sobretudo, uma sábia hierarquização das mutações mais significativas, desde o esvaziamento do mundo rural, a uniformização da informação e a superficialização do conhecimento, até ao narcisismo e egoísmo imperantes, bem como a desvalorização das ideologias e um deperecimento do Estado nunca imaginado por aqueles que o teorizaram.

Também nos fala do homem novo. Mas o homem novo por quem tantos se sacrificaram é, afinal, um homem do avesso. Ou, como o diz lapidarmente Almeida Santos : “Um Homem outro, tão centrado no indivíduo quanto despojado da pessoa.” E é por isso que aponta para a necessidade de pôr tudo em causa. “Uma nova tábua de valores – propõe – um novo direito, uma nova justiça, um novo modelo de desenvolvimento e partilha, uma nova autoridade, um novo Estado. Um novo Pacto. Uma nova ordem política, social e cultural.”

Pessimista? Eu diria que só se for aquele pessimismo que conduz ao optimismo da acção. Deve-se a Almeida Santos um texto que considero a melhor síntese sobre a descolonização. Está lá tudo. O antes, o durante e o depois. As causas, os porquês, as consequências. Um texto importantíssimo, que devia ser lido nas escolas, objecto de estudo, debate e divulgação.

Por tudo isto e muito mais, alguns livros de Almeida Santos constituem um marco, não só na sua bibliografia mas na história contemporânea da literatura de ideias em Portugal.

Neste tempo de adoração de novos bezerros de oiro, Almeida Santos tem a coragem da sua crença na força da palavra e da ideia. E diz–nos que só um novo pensamento, um novo olhar, uma nova atitude, uma nova perspectiva nos podem conduzir ainda à salvação.

Era um homem de afectos, um humanista. Podia ter sido candidato a presidente. Não quis. Fica a memória e a saudade de um príncipe da República.”

Manuel Alegre

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