Uma campanha triste

“Se Eça de Queirós regressasse ao mundo dos vivos e fizesse o relato do tempo político que vivemos teria, certamente, muitas farpas para distribuir.

A pré-campanha para as eleições presidenciais tem decorrido sob o signo da banalidade. Dez candidatos, alguns dos quais excêntricos, confrontam-nos dia a dia com a irrelevância a que Cavaco Silva condenou o cargo de primeira figura do Estado. Não é aliás por acaso que todos os concorrentes se apresentam como o avesso ou a antítese do atual Presidente, isto é, todos querem ser apreciados e julgados como o anti-Cavaco.

Ao contrário do que possa parecer, este desfile inusitado de candidaturas não é uma manifestação de saúde ou vitalidade da nossa democracia. Pelo contrário, é sintoma de degradação política. Com todo o respeito, e sabendo que de acordo com a lei qualquer cidadão com mais de 35 anos está apto a candidatar-se a Belém, ninguém pode ser mais do que condescendente com figuras como as de Vitorino Silva, o Tino, ou Jorge Sequeira, uma espécie de pregador motivacional, que, além de nos fazerem sorrir, nada mais têm para oferecer além da sua generosidade.

Depois há os demagogos e populistas, como Paulo de Morais ou Henrique Neto, que, mais uma vez sem acrimónia, comparecem a esta eleição ungidos de moralismos e condenações a eito atirando, sem qualquer pudor, lama sobre tudo o que mexe, catalogando de corruptos todos os que os antecederam e fazendo alarde dos seus dotes adivinhatórios – Henrique Neto, por exemplo, gabava-se num destes dias de ter previsto, imagine-se, o terrorismo -, cavalgando a onda crescente do discurso antipartidos e contra os políticos. Como se eles, no passado e no presente, não fizessem parte da classe que agora decidem abjurar.

Por fim, e por injusta que seja esta divisão, temos a primeira liga de candidatos. As sondagens dizem-nos que Marcelo Rebelo de Sousa já ganhou, como se as cartas estivessem marcadas em democracia. Os seus adversários mais diretos parecem resignados e diminuídos por este facto. Ao ponto de o professor ser assunto mesmo quando não o devia ser ou está ausente. Na verdade, pouco ou nada se discute além de Marcelo, apesar da maratona de digestão difícil de 24 debates televisivos. E este, sábio e experiente, aproveita para se deixar plebiscitar. O que parece estar em causa – e não é -, por culpa dos candidatos que temos, é a resposta a uma pergunta simples: queremos ter Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República? É isto que temos, uma campanha triste.”

Nuno Saraiva

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