Carta aberta ao ano que vem

“Caro 2016, ano bissexto. O governo diz que vai repor os feriados a 5 de outubro e a 1 de dezembro, portanto, só lá para o fim do ano; o certo, já daqui a semanas, é que neste ano vamos trabalhar a 29 de fevereiro. Se essa segunda-feira tivesse calhado no ano passado, tínhamos saltado diretamente para março e a ganhar novo mês. Neste fevereiro trabalhamos de graça mais um dia, essa é que é essa. Ficas, assim, 2016 definido como cheio de promessas e, vai-se a ver, nada. Soberba de bissexto, mas comum como sempre. Isto para te dizer que te tenho debaixo de olho e te prefiro fazendo pouco a prometer muito.

De garantido, só, é que vamos melhorar na cúpula do Estado. Há dez candidatos para Belém e qualquer deles, comparativamente, é para melhor, mesmo com aqueles seis ou sete de quem não nos lembramos do nome. Acresce que o provável futuro residente da República, o professor Marcelo Rebelo de Sousa, ainda não foi eleito e já se pôs em funções. Em vez de fazer discursos que precisam de 17 analistas e oito xamãs para o interpretar, Marcelo foi ao Hospital de São José, pôs a cara da circunstância (de interessado, e ele sabe fazer isso porque é genuinamente interessado), disse frases simples e não fez nada. Exatamente o que se espera dum presidente. De Belém, exceto no Natal, nunca se espera nada. Não mora lá a solução, já sabemos, mas pelo menos que deixe de morar lá mais um problema. E há outra coisa: com Marcelo vamos ter um PR de quem se gosta. Isto de sentimentos pode ser um mau critério, mas, meu Deus, as saudades que tínhamos.

E, pronto, de (mais ou menos) garantido é tudo, da Calçada da Ajuda para baixo será só para desajudar. O governo aguenta? António Costa até parece ser daqueles índios tupinambás que comiam o coração dos adversários para ficarem mais fortes. Ele comeu o nome do antigo adversário no partido e ficou seguro. De posição periclitante, até dado como morto, ele negociou aqui e ali e tirou o coelho da cartola do poder. E meteu-se lá, a si próprio. Mas isso foi ontem, 2015. Em 2016, só sabe que vai continuar a conduzir com muitas rodas sobresselentes mas nenhuma garantida.

Costa, ao volante, preocupado com a falta de gasolina ou a lubrificação dos travões, e, logo no primeiro troço da estrada 2016, o padre Edgar a estrebuchar para não se deixar ultrapassar pela Marisa. Vá lá controlar-se um automóvel quando os passageiros disputam corridas, ainda por cima fúteis, lá dentro. Trago esse affaire entre um padre e uma morena para aqui para melhor sublinhar a solidez do chauffeur. António Costa não se dispersa em futilidades, vejam como se descartou das presidenciais perdidas. Seja o que acontecer aos candidatos “socialistas”, para lá da certeza de perderem, não salpicará o PS. Isto é de político.

Costa teria um bom mandato de primeiro-ministro assegurado se tivesse uma base sólida. Podia dedicar-se ao que melhor sabe – fazer, ele inventou uma nova Lisboa -, com uma visão que não se vê por aí nos nossos líderes. Contra ele, um defeito maior: que falta de jeitinho para arranjar conselheiros de marketing. Para quê análises? Confirme-se em imagens da campanha eleitoral: aqueles saltinhos num célebre comício. Nada pior para um homem público do que mimar publicamente aquilo que se sabe que ele não é. Sobretudo quando naturalmente pode tirar partido do bom que tem. Qualquer marqueteiro brasileiro lhe aconselharia “vá por aí”, sendo o ir ficar de cara de póquer na tomada de posse quando Cavaco o cobria de fel e responder com um discurso contido. Nisso é bom, porquê variar?

Toda a política 2016 está alicerçada numa circunstância adversa: não há maioria suficiente. Costa tirou partido, desenvolvendo a sua conhecida aptidão para tecer alianças. Compare-se o que ele conseguiu com o insucesso socialista em Espanha, que vai desembocar provavelmente em novas eleições. Mas esse mérito deve ser relativizado pela sorte que todos os políticos portugueses herdam: por cá, pode governar–se sem ser pressionado pelas divisões nacionalistas (a causa principal de impasse de novas soluções, em Espanha). Seria preferível, porém, que um primeiro-ministro português não perdesse o tempo, para dedicá-lo todo à crise, sendo certo, ainda, que tudo lhe pode escapar entre os dedos, basta outros não estarem para aí virados. O apoio do PCP e do Bloco foi a boa notícia de 2015. A fraqueza desse apoio é a causa da instabilidade em 2016.

O comprometimento do PC e do Bloco de Esquerda com a viabilização dum governo retirou um quinto do eleitorado da situação passiva antissistema. Um passo em frente histórico. Paradoxalmente, é da força mais radical, o BE, que se espera ser mais consequente na aliança política. A aceitação do ex-líder revolucionário Francisco Louçã em ser conselheiro de Estado deverá dar ao Estado (burguês) a confirmação de que o Rubicão foi finalmente atravessado pelos nossos revolucionários. Os comunistas, mais obrigados a dar satisfações para “baixo” (sindicatos, autarquias…) e mais frágeis pelo anacronismo da ideologia, são o elo fraco da estabilidade governamental. A ver vamos, só não sabemos se será em 2016.

O primeiro a entender que é tempo de espera foi Passos Coelho, o nosso especialista em banhos de cadeira. Rapidamente se deixou de não tratar Costa de “primeiro-ministro” e rapidamente se devotou à sua carreira de sempre (depois da deriva de jota irresponsável e após jota ainda mais irresponsável): construir uma aura de consequente. Agora, é de falar pouco e simples. O culminar foi no verão de 2013, quando foi calmamente em frente enquanto Portas estrebuchava irrevogavelmente. Passos Coelho aprendeu a lição de que os portugueses gostam de teimosos pacatos. Voltar ao Parlamento como deputado foi de mestre. Agora descarta as suas responsabilidades no Banif dizendo que faria o mesmo que o sucessor e apoia este no Retificativo. A imagem de servir é a que pretende passar e vai continuar a servir-se dessa imagem de servir. Os outros candidatos à liderança da direita vão ter um deserto a atravessar em 2016.

Armada a estrutura do Estado Português com essa perspetiva, só vai ser preciso tentar resolver as questões financeira, judicial, de educação, da saúde… E, já agora, a da informação – lembro essa, tão esquecida, porque no dia em que passar em prime time o vídeo do centésimo cidadão (por enquanto só foram dois) interrogado por magistrados, então se perceberá que o jornalismo não pode ser uma coutada exclusiva de criminosos. Enfim, 2016 terá muito que fazer.

Mas, já que és bissexto, 2016, podias reservar um dia para nos dedicares ao que acontece lá fora e, sendo tão forte, nos acontece também. Não é que possamos resolver – como já vimos, mesmo o que nos acontece cá dentro não resolvemos -, mas só para ficarmos a saber. Em jeito de rol: a Europa desarmada e cercada; a Europa a explodir em mininacionalismos, tudo muito bonito como uma canção celta não fosse a causa principal: a fraqueza de cimento comum; o islamismo radical em geral; o islamismo radical na Europa… Bom ano.”

Ferreira Fernandes

Anúncios
Explore posts in the same categories: Sociedade

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: