Palavra dada

“Pedro Passos Coelho estava ainda primeiro-ministro em gestão. Numa entrevista à RTP, poucos dias antes da tomada de posse do governo socialista, sentenciava, solene e firme, que “no dia em que o PS tiver de depender dos votos do PSD ou do CDS-PP para aprovar alguma matéria que seja importante, eu espero que o doutor António Costa peça desculpa ao país e se demita”.

Hoje, em entrevista ao DN, o líder parlamentar Luís Montenegro afirma que “se der em divórcio com a esquerda, PSD não será noivo do PS”. Entre estas duas sentenças medeia menos de um mês. E pelo meio a esquerda já se desentendeu sobre a manutenção da contribuição extraordinária de solidariedade e a direita, PSD e CDS-PP, acabou por votar em auxílio da proposta socialista. Serve este exemplo para demonstrar o quanto são voláteis as convicções ou as intenções no discurso político.

Na verdade, e já com o divórcio por mútuo acordo assinado à direita, não foi preciso que António Costa pedisse desculpas a quem quer que fosse para que os partidos da antiga maioria lhe dessem a mão e pusessem em causa a palavra dada por Pedro Passos Coelho. Não sabemos se, por mero acaso, foi ideia do presidente do PSD este recuo ou se, pelo contrário, foram as circunstâncias que o determinaram. Mas, aberto o precedente, já ninguém estranhará que no futuro – pelo menos enquanto der jeito – a direita sirva de amparo à minoria socialista quando o resto da esquerda se entrincheirar no protesto.

No mesmo dia em que isto aconteceu, ontem, António Costa veio reafirmar o decreto de que a TAP voltará a ser maioritariamente pública, custe o que custar, “com ou sem acordo”. Pelo menos neste capítulo, e na fase do jogo em que estamos, não se pode acusar o atual primeiro-ministro de não honrar os seus compromissos. Desde maio, numa entrevista ao DN, que o então apenas secretário-geral do PS prometia reverter a privatização da companhia aérea. É certo que o seu ministro das Finanças disse há poucos dias que esta apenas aconteceria se não tivesse custos. Mas isso são outros quinhentos.

Não está em causa qualquer juízo de valor sobre a substância das decisões de uns e de outro. Apenas o facto de que uns e outro, manifestamente, atribuem um valor diferente à palavra dada. E isso faz toda a diferença.”

Nuno Saraiva

Anúncios
Explore posts in the same categories: Política

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: