Labirinto das razões

“Não me parece de bom augúrio as declarações frequentes de Jerónimo de Sousa, a acentuar o carácter circunstancial do apoio ao governo do PS.

Não é preciso repeti-lo, porque nós sabemos que esta relação, aparentemente morganática, (perdoe-se-me a injunção) nasceu de um propósito político maior: o de correr com o Executivo anterior. A incomodidade do secretário-geral do PCP é, acaso, entendível: há questões de honra que se não compadecem com certas “adequações”, mas a História é uma deusa cega. Se qualquer dos partidos entender estar a molestar a identidade própria, só tem um caminho: afastar-se, suportando as consequências que tal decisão comporta.

Apesar das ciladas e armadilhas (“Tem uma pedra no caminho”, Carlos Drummond de Andrade), dos pequenos e grandes mal-estares que provoca à Direita e à Esquerda, o Governo, este, tem manifestado uma acção assinalável, nos curtos dias do seu estar. Denunciou que as contas públicas não eram o que se dizia; tem a intenção de rever o acordo com a TAP; já mandou travar as subconcessões dos transportes; e reabilitou os feriados do 1º de Dezembro e do 5 de Outubro. Há mais. Não será muito, mas são actividades estimáveis para quem enfrenta tamanhos estorvos.

Estamos a andar em veredas perigosas, por desconhecidas. O governo anterior obrigou-nos a existir, não a viver. E mesmo esse existir foi penoso porque marcado por um autoritarismo instante e soberbo. O paradigma sob o qual aprendêramos a estar, inspirado nos propósitos humanistas saídos dos escombros da segunda guerra mundial, foi espezinhado por um grupo subserviente ao ditado de Milton Friedman. O que sobrevive, na Europa alemã, é o resquício desse projecto.

E António Costa, goste-se ou não, o que é irrelevante, tenta restituir a essa normalidade humanista, digamos assim, o que foi destruído. Quando do 25 de Abril, dizia-se que a democracia só se construía com democratas. Logo surgiram montes deles, instantâneos como o pudim flan. Os que, intermitentemente, nos governam mais não são do que descendentes daqueles. É, acaso, altura de perguntar: que democracia Passos Coelho e os seus praticaram e defenderam?

Pelo menos, neste momento, respiramos um pouco melhor. Mas isso não nos basta. Queremos mais porque, nos últimos quatro anos e tal, nos roubaram quase tudo. Convém que os subscritores dos compromissos não o esqueçam.”

Baptista Bastos

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