Uma direita sem futuro

“A direita está sentada num banco duro à espera que algo corra mal a António Costa. Não tem programa, não tem ideias, não tem outra estratégia que não seja fazer figas e lançar maus-olhados.

É pouco. Sobretudo para o PSD que já teve grandes políticos e hoje se reduz a um bando de rancorosos.

Veja-se a apresentação da moção de rejeição. Uma vergonha. Inútil, incoerente, infantil mesmo. A direita continua a insistir na vitória eleitoral, quando soma derrotas atrás de derrotas. Se o objetivo era dividir a maioria parlamentar de esquerda, a moção de rejeição serviu para reafirmar perante o país a sua unidade funcional.

Este comportamento não pode durar muito. A birra isola os partidos de direita do debate político tornando-os, aos olhos dos seus parceiros de interesses, sobretudo empresários, irrelevantes. Fora da política, a coligação de direita servirá para fazer alguns títulos de jornal, mas não serve para a decisão, para os negócios, nem para as negociatas. E este é um ponto crítico. PSD e CDS são os partidos que maioritariamente representam o mundo dos negócios, os legítimos e também os obscuros. Muita coisa depende dos bons ofícios e cumplicidade dos seus deputados, dos que se encontram em lugares de poder e decisão. Um alheamento total da cena política é uma tragédia para muita gente. Perdem-se influências, oportunidades e oportunismos.

O tumulto vai por isso dar-se, só não se sabe quando. Tumulto que não será de ideias, nem de estratégias, mas de pessoas. Numa direita inútil, que não passa da lengalenga, incapaz de proteger os interesses dos amigos, Passos e Portas depressa serão vistos como obstáculos a remover. Portas, porque é pouco relevante e domina um pequeno partido feito à sua medida, pode sobreviver algum tempo. Passos Coelho é mais problemático. Imagina que ainda vai ter uma segunda oportunidade. Mas, se a coisa se prolongar e a desgraça de Costa não chegar depressa, a sua teimosia e rancor não bastarão para enfrentar a oposição dos que não aceitam ver o PSD marginalizado.

Tanto mais que o desgaste será também popular. Fora do poder, sem narrativa, virão ao de cima os erros, as incompetências, as trapalhadas e negociatas, os múltiplos logros usados e abusados para gerar a ilusão de que estava tudo a correr muito bem. Sabe-se agora que não estava, que muita coisa foi feita de forma pouco transparente, para ser simpático, que os cofres estão afinal vazios, que as promessas eram vãs, que o processo do orçamento nem sequer foi iniciado, o que diz muito sobre a noção de compromissos nacionais e internacionais do Governo anterior.

Sabe-se também que a Europa não tem qualquer problema com o Governo do PS e já esqueceu o amigo Passos. E isto dói. Muito. Ninguém gosta de passar de bom aluno a irrelevante. Como se não bastasse, os tais mercados também não parecem nada assustados.

Temos assim uma direita, amarrada ao passado, obsessiva na repetição de inverdades, antidemocrática, cada vez mais reacionária e radical. Até já ensaiam manifestações e partem montras. Um dia destes fazem apelo aos militares. Mas a cabeça perdida não leva a lado nenhum. Prejudica o país e a própria agremiação. Sobretudo, tolda a visão, impede que se entenda a inevitável mudança dos tempos e haja em conformidade.

Duas notícias desta semana são particularmente interessantes a este propósito. Bill Gates disse em Paris que só o socialismo pode resolver o problema do aquecimento global. Os privados nunca o conseguirão fazer. Percebe-se porquê. São lógicas distintas e frequentemente antagónicas. Entretanto, Mark Zuckerberg anunciou que vai doar 99% das suas ações do Facebook para ajudar a melhorar o mundo. E logo 99% que esta gente não é mesquinha. São duas declarações incríveis. A primeira contesta essa ideia peregrina de que os privados fazem tudo melhor, quando está claríssimo que só as políticas públicas, as que se interessam pelo bem comum, podem de facto resolver certos problemas. A segunda inscreve-se numa perspetiva de redistribuição da riqueza, longe do egoísmo dos ricos, e da cartilha do empobrecimento como purga seguida pelo anterior Governo.

Em suma. O ambiente mudou e ou a direita se adapta ou definha. Darwin explicou.”

Leonel Moura

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