Afinal, é possível

“Os jogos estão feitos. Os problemas começam agora, com armadilhas pensadas, ciladas previstas, traições, renúncias e apostasias. Álvaro Beleza, um rosto da abjuração, foi contemplado com generosas páginas do ‘Público’ sempre muito atento a estas dissidências, e declarou: “O PS anda numa deriva esquerdista.” Pergunta a curiosidade comum: mas, para Beleza, o PS não é de esquerda? E a linguagem do distinto não pertence, ela sim, ao vocabulário do PREC? A verdade é que esta união de partidos coloca um ponto final na ‘deriva de direita’ do PS, e esclarece, sem margem para dúvidas, que António Costa obteve apoio maioritário, diria mesmo: esmagador, dos órgãos dirigentes do seu partido.

Não vou perder tempo com a miuçalha; regozijo-me pelo facto de, ao fim de 40 anos de perplexidade e de esperanças truncadas, viver num país onde, finalmente, um milhão de portugueses, antes excluídos por preconceitos ideológicos, poderem ter voz e opinião através dos seus representantes.

É uma grande vitória da democracia e da maturidade política dos que decidiram enfrentar o cerco e o esmagamento impostos de fora, e que faziam de Portugal um país de segunda e dos portugueses mentecaptos. Manuel Alegre resumiu, na noite de todos os entendimentos, a excepcional importância do compromisso histórico, endereçando um abraço a Jerónimo de Sousa. O PCP abdicara da sua tendência hegemónica à esquerda para acompanhar a marcha da História.

O alvoroço assustado da direita forneceu o retrato de uma mentalidade obsoleta, de um pensamento absurdo por abstruso, e de uma gente só interessada em caucionar os privilégios de casta. Aliás muito pouco inteligente, como se tem visto e ouvido pelas declarações dos seus apaniguados.

O que foi não voltará; ou, se voltar, terá a configuração de uma ópera-bufa. Os protagonistas desta grande reviravolta vão ser alvo de calúnias e objecto de perigos enormes, a adivinhar pelos enleios já afirmados na retórica da direita. Abriu-se uma ruptura nos hábitos e nos costumes políticos em Portugal. Uma componente importante da liberdade foi adicionada ao tecido democrático. O dr. Cavaco nada tem a ver com isto.

Não deve estar muito contente. Mas o que ele decidir é irrelevante. E, entendeu-se, o papão do comunismo, a cultura do medo não resultaram. Como se dizia no Maio de 68, só devemos ter medo do medo que criamos em nós próprios.”

Baptista Bastos

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