As coisas por aí

“O governo de António Costa, eventual e previsível, mas não certo e firme, está a ser cercado por vários sítios, reavivando-se a teoria dos medos, muito comum na nossa História. Não é de espantar: a Coligação está assustada e diz coisas desarticuladas ou, até, insultuosas, como o tem feito Paulo Portas. O chefe Passos Coelho é mais comedido, e infere-se que ainda embala a ideia de uma relação afectuosa com o PS. A situação de ambiguidade, alimentada pela União de Esquerda, aumenta o alvoroço da Coligação de Direita porque não se trata, somente, da substituição de um governo por outro, mas de uma profunda alteração nos métodos e nos modos culturais e sociais.

António Costa aparenta uma alegria por vezes forçada; Catarina Martins muito esfuziante e afirmativa; mas Jerónimo de Sousa não esconde o semblante acabrunhado e melancólico, não será difícil perceber porquê. O espectro político português foi abalado por uma convulsão que está a pôr em causa todas as aparências ideológicas nas quais temos vivido há 40 anos, e até mais, se contarmos com a história do PCP.

Fala-se em Cunhal e na sua estratégia, ao pedir aos militantes para taparem os olhos e votar Soares. As semelhanças são difusas, mas possuem um quociente de razão. Os dirigentes comunistas perceberam que esta é uma ocasião soberana para influenciar o poder, como Cunhal entendeu os perigos que corriam com a eventual ascensão de Freitas do Amaral. Como se sabe, as decisões comunistas são tomadas na Comissão Política, saída do Comité Central, e presume-se que Jerónimo de Sousa as aceitou a contragosto. A situação portuguesa tornou-se inaceitável, na possibilidade de Passos e os seus regressarem ao governo, com a declarada bênção do dr. Cavaco. Além do que a espectacular subida do Bloco perturbou a direcção do PCP. Se avaliarmos a questão por este prisma, as coisas tornar-se-ão mais claras. É uma simples equação.

A radiante alegria de Catarina Martins encontra na prudência do PCP uma espécie de freio. O partido sabe que as coisas não são tão fáceis e não quer que a sua história seja beliscada por nenhum aventureirismo. De qualquer modo, esta União de Esquerda é um acontecimento que pode ser vital tanto para a política portuguesa, como para a Europa, cuja rotina tem sido abalada por sacolejões que, afigura-se-me, não vão parar.”

Baptista Bastos

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