Vasco Gonçalves em Belém

“Dado que os partidos das esquerdas admitiram que ainda não tinham um acordo e continuavam a negociar, andou bem o Presidente da República em ter convidado a coligação PAF para formar governo.

Depois disto, Cavaco Silva, na sua declaração, concentrou-se em tornar-se a maior fonte de instabilidade do país. Assistimos a uma nova versão de Vasco Gonçalves, Cavaco trouxe o famoso discurso de Almada para Belém – como há quem não consiga sair do PREC, talvez a referência ajude – tornando-se ainda mais num fator de divisão dos portugueses e ajudou a aprofundar o clima de grande crispação em que vivemos.

Em primeiro lugar, mostrou que andou a brincar connosco quando apelava ao diálogo e aos consensos. Um indivíduo que vem furibundo praticamente insultar quem toma caminhos diferentes dos que ele defende não quer conversas, quer apenas impor a sua vontade. O que o impedirá de dizer ao BE e ao PCP que devem também recuar em certas posições, ceder noutras e por aí fora? Há um milhão de pessoas com quem não se pode dialogar? Há um milhão de portugueses que o Presidente da República não representa? Preferirá Cavaco Silva que essas forças permaneçam à margem do sistema, que não se fale com elas? Será que não percebe que é a melhor forma de crescerem e de se radicalizarem ainda mais? Bom, já não tenho grandes dúvidas sobre quem são os extremistas e os revolucionários nesta história toda.

Em segundo lugar, iniciou a execução duma estratégia de que vamos ouvir falar muito nos próximos dias. A que diz que só podemos votar nos partidos que os mercados achem os indicados. A que, no fundo, grita que a nossa democracia é uma fantochada.

Cavaco implorou aos nossos credores para que nos colocassem em maiores dificuldades económicas. Não fosse os mercados e os credores estarem distraídos e ele se encarregou de os chamar para que nos viessem dar o corretivo, até que ganhássemos juízo.

Vamos ter muitas declarações de destacados dirigentes europeus, de representantes de grandes bancos, de empresários nacionais e internacionais nas próximas semanas a lembrar-nos que isto é tudo muito bonito mas eles é que sabem.

O que vale é que já todos percebemos que para Cavaco tudo serve para que obtenha aquilo que quer, se não podíamos perguntar-lhe se um governo sem o apoio da maioria no Parlamento, sem Orçamento, sem conseguir aprovar leis, serão coisas boas para que os mercados e os credores tenham confiança no nosso país?

Em terceiro lugar, apelou a uma rebelião no PS. Logo ele, que enquanto líder do PSD não pactuava com a mínima dissensão no seu grupo parlamentar.

Não deixa de ser estranho que o político profissional mais antigo e experiente de Portugal não tenha percebido que dessa forma iria acabar com a mais pequena hipótese de aparecerem vozes dissonantes entre os socialistas. Aliás, quando marginaliza BE e PCP também não faz mais do que atirá-los para os braços do PS.

Não seria impossível dar uma ajuda maior a António Costa na tarefa a que o socialista se propôs de unir o partido e as outras esquerdas. O PCP agora comerá uma manada de elefantes, não há UDP que consiga estragar a festa a Catarina Martins, não há segurista que faça cara feia.

Em quarto lugar, o novo Vasco Gonçalves da direita revolucionária decidiu entrar em guerra aberta com os representantes do povo: os deputados. Bem sabemos que um revolucionário a sério sabe o que o povo quer e não precisa que esquemas reacionários, como o voto, interfiram na sua linha de ação.

É verdade que tanto o Presidente como a Assembleia têm a mesma fonte de legitimidade, o povo, mas é também bom recordar que é do Parlamento que sai o governo e aos deputados que cabe avaliar da sua viabilidade. O que Cavaco se prepara para fazer, ameaçando não indigitar uma outra possível solução governativa, é um ataque frontal e radical ao Parlamento e ao regular funcionamento das instituições.

Ao Presidente não cabe analisar programas de governo, não cabe votar orçamentos nem leis, isso são tarefas dos deputados. São eles que aprovarão ou reprovarão as leis, que imporão ao governo uma linha de ação. O Presidente não promulgará? Barricar-se-á em Belém até o seu mandato acabar?

O Presidente pode tentar convencer os partidos a mostrarem-lhe um acordo claro, sólido, com garantias de respeito pela Constituição e pelos acordos internacionais, mas pouco mais do que isso. Pouco mais do que algo quase pedagógico.

Bem sei que Passos Coelho terá pouca vontade de liderar um governo de gestão (o buraco BES vem aí e agora já sabemos que a devolução da sobretaxa era uma treta eleitoral), mas ninguém como ele sabe o quão importante é deter o poder, seja em que circunstância for.

Penso que não serão precisas explicações para que se perceba o efeito no país e na economia dum governo em gestão durante dez meses, da culpabilização deste e daquele pela situação, pela confusão que iria reinar. Lá está, Cavaco “Vasco Gonçalves” Silva e o processo revolucionário em curso.”

Pedro Marques Lopes

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