Um Governo com todos?

“Há qualquer coisa no ar que sugere que vivemos um período de transição: o novo ainda não se instalou e o velho continua a andar por aí, ainda que num lento e agonizante estertor.

O novo, está à vista de todos, é que, depois de tantos apelos, a democracia portuguesa lá decidiu comportar-se à imagem do que acontece nas democracias consolidadas que tanto gostamos de usar como exemplo. Negociações demoradas e complexas, busca de entendimentos partidários e, no fundo, os partidos a adaptarem-se à natureza proporcional do nosso sistema eleitoral. Um dia teria de ser: a nossa política acabaria por evoluir para uma “bipolarização perfeita”, para utilizar a feliz expressão de José Miguel Júdice no Expresso de sábado. Os resultados materiais podem não se sentir para já, mas a mudança terá vindo para ficar.

O velho não para, contudo, de se exibir: a linguagem revanchista, a fulanização das disputas, o recurso ao ataque de carácter. Uma combinação exemplar dos traços mais negativos da nossa política. Basta ver um espaço de comentário numa rádio ou numa TV ou ler as páginas de opinião (e os editoriais) dos jornais para ficar claro o verdadeiro muro comunicacional entretanto erguido. Talvez tenhamos descartado com demasiada ligeireza a velhinha hipótese teórica da “Ideologia Alemã” de que “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”. Como bem assinalava Valdemar Cruz no notável “Expresso Curto” da passada sexta-feira, “com os acontecimentos a atropelarem-se ao minuto, vivemos uma nova era comunicacional. Depois do jornalismo opinativo, passamos pelo jornalismo interpretativo, e estamos agora na fase do jornalismo adivinhativo”. Em qualquer caso, o insulto parece ser o motor da história política das últimas duas semanas.

Apesar de tudo, o importante é concentrarmo-nos no novo.

E o novo é o fim da ideia de “arco da governação” como a conhecemos em 40 anos de democracia. o princípio de que CDS, PSD e PS são partidos naturais de governo (uns mais do que outros) e que ao espaço político à esquerda está vedado o acesso ao poder executivo. A ideia é não só anacrónica como nefasta para o equilíbrio do sistema político e da representatividade. Poderá uma democracia resistir quando cerca de 20% do eleitorado está afastado da governação?

É neste contexto que se afigura particularmente insólito o convite de Passos Coelho para o PS e António Costa integrarem um governo de coligação alargada, correspondendo ao tradicional “arco da governação”. E não é, no essencial, por que tenta trocar uma negociação programática por uma mão-cheia de lugares num futuro governo.

Num momento em que tantos procuram interpretar o sentido do voto individual de todos os que votaram PS, nenhuma ideia seria menos fiel ao eleitorado do que os socialistas irem para o governo coligando-se ao PSD e ao CDS.

Mas talvez a questão central seja outra. O sistema político português assenta num conjunto de equilíbrios, com representação política da direita, do centro-direita, do centro-esquerda e da esquerda. Todos os partidos são relevantes para assegurar a representação social e política. Ora, poucas coisas subverteriam mais os equilíbrios sistémicos do que uma grande coligação, que iria da direita ao centro-esquerda. Dificilmente não surgiria algo de novo à esquerda do PS e não se vê que vantagem decorreria de uma absorção do PS, que não corresponderia a uma representação efetiva do seu espaço político e social. Um Governo composto por todos os que já nos governaram não serviria de nada e seria a machadada final no sistema partidário como o conhecemos. É que o governo pouco ganharia, o PS, de facto, “pasokizar-se-ia”, e surgiria rapidamente um novo partido. Afinal, a política tem mesmo horror ao vazio.

Hoje, só há, por isso, dois caminhos: ou um governo minoritário da coligação viabilizado pelo PS (se não houver entendimento à esquerda), ou, alternativamente, um Governo assente num compromisso para 4 anos e do qual farão parte, com representação no elenco governativo, PS, BE e PCP. Todas as outras hipóteses são velhas e terão de ser deitadas para o caixote de lixo da história.”

Pedro Adão e Silva

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