Da tradição

 

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“E depois havia a tradição. O filho do pedreiro era pedreiro, o filho do pescador era pescador, o filho do sapateiro era sapateiro, o filho do trabalhador rural era trabalhador rural, que por acaso era camponês, e por aí, e andavam na escola até à quarta classe a aprender que D. Afonso Henriques tinha sido o primeiro rei de Portugal e que em 1385 tinha havido uma batalha em Aljubarrota onde tínhamos dado nos cornos dos espanhóis, os rios do Continente, as plantações das Ilhas Adjacentes e os caminhos-de-ferro do Ultramar, a escrever o nome para quando fossem tirar o bilhete de identidade ao registo civil e a tabuada de cor e salteado para contar os trocos e o rol a pagar na mercearia no final do mês. O filho do rico era o filho do rico e o filho do doutor era o filho do doutor, categoria que abrangia todos os doutores de todas as categorias à face da terra, à excepção do engenheiro que era senhor engenheiro e era filho do senhor engenheiro. As mulheres eram as mulheres com a nuance de poderem ser mulheres ricas ou mulheres pobres, mulheres dos ricos ou mulheres dos pobres, quietas lá no seu sítio de donas de casa e parideiras. Na Santa Paz do Senhor, Amém.

Depois vieram os comunistas e os anarquistas e os socialistas e os esquerdistas e os do reviralho e ficou tudo de pernas para o ar e já não se percebe quem é quem. E é preciso um electricista e já não há electricista, só se for um brasileiro, que o filho do electricista agora é engenheiro. E é preciso um estucador e já não há estucador, só se for um preto qualquer das ex-colónias, que o filho do estucador agora é advogado e preto estucador é o pai que os filhos dos pretos estucadores andam no gamanço e a vender droga. E depois é preciso um canalizador e já não há canalizador, só se for um ex-comunista qualquer do leste da Europa, que o filho do canalizador agora é médico. Onde é que já se viu?!

E há que corrigir estas distorções à tradição e ao normal funcionamento da sociedade e isso consegue-se dando às famílias a possibilidade de escolher a melhor escola que dê o melhor ensino e a melhor educação aos seus rebentos, coisa até agora impossível de conseguir por causa do interregno que foi o fim da tradição imposto de fora pelos outros, sem respeito, comunistas e anarquistas e socialistas e esquerdistas e do reviralho.

E o senhor Presidente do Conselho preocupava-se com as coisas que eram de preocupação e os trabalhadores preocupavam-se com as coisas que eram de trabalhar e os colaboradores preocupavam-se com as coisas que eram do colaboracionismo e os engenheiros com as coisas que eram da engenharia e os doutores com as coisas que eram dos doutores, em geral, e da medicina, em particular, e não haviam cá estas democracias da democracia e de haver eleições onde ninguém elege um primeiro-ministro, quanto mais um Presidente do Conselho, mas onde são eleitos deputados que formam maiorias.

E pode o partido que não ficou em primeiro no final da contagem formar Governo, com o suporte da maioria dos deputados que foram eleitos para formar maiorias e não para eleger primeiros-ministros, e governar? Não pode, por causa da tradição.”

José Simões

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