Vaias, insultos, manifestações e greves não servem para nada. Discursos também não. Portugal foi entalado pela Europa e só esta nos pode tirar do apuro. O país é pequeno, pobre e pouco influente. A margem de manobra é nula.
Não vale por isso a pena insistir em dois mitos que estão muito em voga. O primeiro diz respeito à culpa. Alguns fanáticos consideram Sócrates a origem de todos os males. Outros, concedem que a culpa não é de nenhum governante em particular mas da classe política no seu todo. Há ainda quem ache, na visão doméstica das contas públicas, que simplesmente se gastou de mais. Enfim, é convicção geral que de uma maneira ou doutra a culpa é nossa. Não é.
O Portugal contemporâneo não inventou nada. Cumpriu ordens. Fez o que tinha de ser feito. Tardiamente democrata, o país foi obrigado a fazer em poucos anos o que os outros levaram décadas. Da Europa veio o dinheiro e a imposição para se construírem estradas, hospitais, escolas e uns quantos devaneios. Aumentou-se a formação geral, passou-se do país rural da beatice, para o país moderno mais perto do modo de vida europeu. A Europa exigiu que os portugueses se desenvolvessem, se tornassem rapidamente mais civilizados, mais parecidos com os alemães. E foi o que se fez. Com empenho e talento, diga-se de passagem. Depois, quando menos se esperava, apareceu uma crise financeira nos Estados Unidos e, como o mundo anda todo ligado, a onda de choque depressa chegou ao velho continente. Veio então a ordem, em 2008, para se injetar dinheiro às carradas nos bancos. Foi o que Sócrates fez. Mas de pouco serviu. Tal como nas sequelas, o império financeiro contra-atacou. Chegados à chamada crise das dívidas soberanas, como o país de soberano já tem pouco, a troika aterrou.
Nesta história, o que podia Portugal ter feito? Quase nada. Ou será que se os governos anteriores tivessem eliminado alguns feriados, cortado nos salários dos funcionários públicos, poupado nas gravatas dos ministérios, o país estaria muito melhor? Que ilusão! Que demagogia!
Portugal não tem culpa, porque Portugal não tem culpa de ser pequeno, com pouca gente, sem grandes riquezas naturais, tirando o sol, não ter uma elite esclarecida, nem ricos que não sejam meros provincianos com dinheiro. Metade do século vivemos na idade média, a outra metade foi passada a tentar recuperar o tempo perdido. Esperavam melhor?
O segundo mito é o de que estamos em vias de resolver o problema. Não estamos. O atual governo acha que, ao secar a economia, está a criar as bases para a prosperidade. Não se vê como. A liquidez está a ser arrebanhada por todo o lado para pagar dívidas. Vendem-se ativos para pagar dívidas. Contraem-se novas dívidas para pagar dívidas, ou seja, fica tudo na mesma ou ainda pior. Como é que sem liquidez, sem empresas e com mais dívidas se pode sair da atual crise financeira? Não pode.
A coisa é tão óbvia que até dói. Vivendo nós numa sociedade do consumo, como é que sem dinheiro para consumir se podem criar empresas que produzam bens de consumo? Como é que alguém vai investir num negócio, numa fábrica, num produto, numa inovação? Onde estão os clientes? E mesmo os que respondem, com alguma justeza, que é na exportação que está a salvação, por um lado os nossos habituais clientes europeus também não estão melhor, e não é de um dia para o outro que se consegue transformar Portugal num país fortemente exportador. Falta dinheiro, falta tempo, faltam ideias e, já agora, também falta ânimo.
Estamos, portanto, e mais uma vez dependentes dos outros e a cumprir ordens. Desta vez chama-se austeridade e é isso que o nosso governo faz com gosto. Cortes e greves equivalem-se na irrelevância. Isto só muda quando a ordem mudar.
É assim que, neste preciso momento, estamos suspensos de dois eventos políticos europeus importantes. As eleições em França, já em Maio, e na Alemanha, para o outono do próximo ano. Se o poder mudar de mãos nestes dois países, se vier aí um reviralho europeu, talvez Portugal se safe. Senão é miséria e mais miséria. Tão simples como isto.
Leonel Moura
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